Brasil -


30 de abril de 2011

Casamento real


Dissidência no seio da realeza.
Caros leitores-passageiros, parece que não fomos os únicos que não aguentavam mais ouvir falar do tal "casamento real".
Talvez agora os jornalistas possam se convencer de que Kate Middleton não é  Diana Frances Spencer e voltar ao trabalho.
E não, eu não vou fazer nenhum trocadilho com a expressão "casamento real". Até porque a daminha de honra aí acima já disse tudo. 

6 de abril de 2011

O silêncio sepulta, mas não mata

Depois que vi o tiroteio gratuito efetuado pelo deputado Bolsonaro no CQC (e o deputado parece mesmo entender de tiro, mas não de alvo), a primeira coisa que me perguntei era se tudo não passava de mais um desses "fatos criados pela mídia", expressão que virou argumento pronto e fácil para encerrar discussões indesejáveis. Para ser mais direto, me perguntei se Marcelo Tas e Cia. não estavam deixando definitivamente para trás a memória de Ernesto Varela e abraçando a canalhice de um Ratinho. 
Não foi surpresa ver, aqui e ali, em uma hiperpágina ou outra, em um comentário ou outro (às vezes desfechado por gente de educação superior, da academia), essa idéia sendo repetida: era só mais um factoide promovido para alavancar audiência. 
Curiosamente, tais comentários do tipo "vamos deixar isso para lá que é só 'coisa da mídia'" quase sempre vinham acompanhados da lembrança de que o deputado em questão é... bem, é deputado. Foi eleito por gente que provavelmente gosta de ouvi-lo dizer coisas como as que ele diz, seja referindo-se a negros, seja referindo-se a gays. 
Ora, bolas, mas se é assim, o argumento do factoide cai por terra. O que o CQC fez foi expor ao sol um tipo de larva política nojenta, que vive rastejando sob o esterco de seus currais eleitorais (essa nova modalidade de curral, que já não pertence mais ao "coronel clássico" mas a um novo tipo de manipulador que usa como cabresto não a força contra seus eleitores, mas a força contra aqueles que seus eleitores pensam que devem odiar). 
É claro que não é a primeira vez que Bolsonaro aparece fazendo o papel de filhinho do general Figueiredo. Mas dessa vez a aparição foi útil: como vermezinho que é, não está resistindo bem aos raios solares. E os asquelmintos que o elegeram e que gostam de comer no mesmo chão em que ele come receberam um recado claro do público: se quiserem continuar com esse tipo de comportamento, vão se acostumando a viver no refugo, sem direito de cidadania sobre o solo; sem direito a qualquer lufada de ar fresco. 
Enfim, essa conversa de que o CQC promoveu o deputado é mais do que fiada. Talvez tenha sido um dos poucos momentos do programa que acertou bem o alvo. Quem acredita que gente como Bolsonaro, que tem mandato político - e, portanto, poder concedido - deve ser mantida fora do ar para não propagar ideias de coloração fascista está esquecendo que o silêncio não resolve nada. É preciso expô-los, é preciso deixá-los mostrar sua carranca abominável para que saibamos com clareza o que rejeitar. Fingir que gente assim não existe no Congresso - e em outros lugares de higiene duvidosa - é pior. 
A aposta no esquecimento é muito perigosa. Não devemos perder de vista que foi justamente por um dar de costas que o nazismo histórico avançou sobre a Europa. Gente dessa laia gosta de ser esquecida enquanto costura sua rede de contatos. Para seu palavreado imbecil vale o ditado: o silêncio sepulta, mas não mata. Deixemos que eles morram, portanto, engasgados com suas próprias palavras, feridos por sua própria voz. 


2 de abril de 2011

Figura da semana


A lógica de Bolsonaro
Manhã do dia 29 de março. Gabinete do deputado. Entra um assessor esbaforido.

Assessor: Deputado, deputado, sua declaração no CQC de ontem à noite repercutiu muito mal. Comenta-se que vão processá-lo por racismo. 
Deputado: O que eu disse mesmo?
Assessor: O Sr. disse que apaixonar-se por uma negra é promiscuidade. 
Deputado: Então diga que eu entendi mal. Diga que eu entendi "gay" em vez de "negra". 
Assessor: Mas, deputado, é discriminação do mesmo jeito!
Deputado: Não, é democrático. Assim, em vez de ofender uma cor apenas eu ofendo um arco-íris inteiro de uma só vez. (Sai o assessor. O deputado se levanta e admira-se no espelho em frente a sua mesa) Como eu queria que o general Figueiredo me visse agora! Chuck Norris e Capitão Nascimento que se cuidem!


O perseguido perseguidor

Às vezes desconfio que o assunto em torno do mandato do deputado Tiririca está se tornando um daqueles exemplos de catarse nacional, no melhor estilo Geni e o zepelim. Explico: um contingente enorme de gente, diante da imposição do voto e da falta de perspectiva política, escolheu o palhaço. Agora que a pressão eleitoral passou, todos relaxam e se divertem fazendo pouco caso do deputado. Difícil dizer com qual dos dois modos Tiririca  proporciona mais prazer aos brasileiros. Um prazer cruel e maledicente, está claro. 
Embora eu já tenha visto amostras desse novo passatempo nacional até em filas de supermercado, o comportamento da imprensa e alguns comentários de leitores é o que me chama mais a atenção. Mas nada como a manchete impagável de ontem, de O Estado de S. Paulo. O gênio autor dessa pérola editorial deveria ter seu nome cunhado na história. Pois ele conseguiu o que poucos escritores conseguem: revelar o próprio caráter por sob a impassibilidade das palavras. Se tivesse escrito "olha aí, ó, eu não disse?", não teria sido mais explícito. Não me lembro de quem já tenha dotado um "já" de tanto significado. Afinal, quem estaria esperando que isso acontecesse, não é?
É certo e é bom quando a imprensa descobre casos de mau uso do dinheiro público. Principalmente porque, sob o mau uso de vultosas somas, há outros crimes ainda mais graves, de cunho político, que viciam a democracia. Duvido, porém, que pedir um reembolso de pouco menos de mil reais (isso mesmo, R$ 660,00 + R$ 311,00, segundo a apuração do próprio jornal) possa esconder muito mais do que uma ou outra champagne e um beliscão envergonhado num caviar. Num cenário em que temos que aguentar em nossa vida política gente como Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney (nem todos com mandato, mas à solta por aí...), o tom da manchete soa, para dizer educadamente, desproporcional. Especialmente vindo de um jornal que estampa aos quatro ventos o fato de estar sendo censurado há mais de um ano. 
Tiririca não é o deputado dos meus sonhos. Aliás, felizmente, eu nem  sonho com deputados. E o seu partido é que é, para mim, uma piada mal feita. Porém, a imprensa trabalharia muito melhor, e nós faríamos melhor coisa, se parássemos com esse clima de perseguição. Ele foi eleito. Isso não lhe dá o direito de fazer o que quiser, mas lhe dá a obrigação de fazer do seu mandado algo que o povo queira. Isso é o que lhe deve ser cobrado. 
Em última análise, os perplexos da república não percebem que até agora só o estão fortalecendo. Tentaram acusá-lo de analfabeto, não conseguiram. Acusam-no de solicitar reembolsos indevidos que não somam sequer quatro dígitos. Pode até ser que isso divirta alguns leitores como os do Estadão - aquela gentalha que vê com horror chegarem até o "andar de cima" as pessoas que padeceram com a má distribuição de renda e de direitos públicos no Brasil. Mas isso só tende a se tornar cansativo e inócuo aos ouvidos dos eleitores: estes sabem que muitos outros, partidários da escola democrática do general Figueiredo (que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo), estão desviando milhões. A única coisa decente a fazer agora é esperar. E, da parte dos de boa vontade, torcer para que o nosso palhaço deputado não se torne mais um deputado palhaço.

30 de outubro de 2010

Demorou!

Pelo menos uma notícia boa, ainda que tardia, em meio à escatologia eleitoral corrente. A Fundação Biblioteca Nacional vai microfilmar (ainda!), digitalizar e disponibilizar para acesso no seu portal a sua coleção de periódicos. Em torno de 9 mil títulos. A nota saiu hoje na coluna Painel das Letras, no jornal Folha de S. Paulo. 
A nota diz que a verba para o serviço virá do Finep (empresa pública vinculada ao MCT). São esperados R$ 6 milhões. 
Não sei se o serviço vai acabar saindo caro. De qualquer forma é ainda um anúncio. Mas, que a ação demorou, demorou. Seja por conta dos antigos administradores da Biblioteca, seja pela falta de sensibilidade do Estado ou da iniciativa privada (claro, por que não ela?), com certeza esse acervo já deveria estar, pelo menos, microfilmado.
Podem dizer que é o meu espírito de vira-lata latino ganindo, mas, quando vejo a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos ostentar uma coleção digital de jornais americanos (que remonta a 1860), sinto que só me resta suspirar. Porque, no Brasil, as coisas importantes parece que sempre tardam. E os que engrossam o coro do "não existe mais centro e periferia" que vão para o escambau!
É claro que a extensa coleção de jornais é só uma parte das coleções digitais da Biblioteca do Congresso. E estou me limitando a uma instituição de um país: há outras realizando um importante trabalho de disponibilização de material.  Tudo bem, convenhamos, a nossa Biblioteca Nacional também tem se esforçado em dispor algum material na internet.
Porém, fica sempre a pergunta: por que demoraram tanto?
Me lembro de já ter encontrado, por exemplo, relatórios de governadores estaduais do Brasil em sites de instituições universitárias do exterior. E não me refiro a relatórios de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Refiro-me a relatórios de um estado obscuro como o Espírito Santo. (Sinto, vou ficar devendo a referência, que realmente não reencontrei). Depois aparece gente idiota dizendo que "é patrimônio nacional, quem tem que fazer isso é o Brasil". Mas não faz. Sorte a nossa que algumas instituições - estrangeiras - funcionam...
A nota diz ainda que não há prazo para terminarem todo o serviço. Espero, sinceramente, que não terminem nunca. E que vão publicando, enquanto isso.

29 de outubro de 2010

E o melhor do segundo turno foi...

Já que essas eleições não podem mesmo ser levadas a sério, acho que cada um deveria fazer a sua seleção de "melhores momentos". 
Tudo bem, tudo bem, todos os momentos foram péssimos. A começar pela polarização falsa entre Dilma e Serra. Estamos de acordo nisso. 
Mas, aproveite que o período de baixarias midiáticas está acabando, ponha o seu senso de humor para se alongar e escolha seu "melhor momento".

Serra que (disse que) amava Aécio que ama
Dilma que (disse que) ama Marina que
(sorte nossa) não ama ninguém. 
Para mim, o impagável veio no segundo turno. Num movimento sincronizado que teria deixado o próprio Judas com inveja, eis que vemos os dois protagonistas descaradamente estendendo as mãos para aqueles que, pouco antes das eleições, fizeram questão de esmagar com todo o peso que tinham (e com algum que pegaram emprestado): Serra correu para os braços de Aécio, porque precisa de Minas no segundo turno como nunca, e Dilma tentou fazer um chamego em Marina. Ora, é claro que os dois procuraram Marina. Mas o movimento de Dilma tinha um gostinho especial: afinal, foi ela que passou como um trator sobre o Ministério do Meio Ambiente (quando Marina era a titular) para aprovar a Hidrelétrica de Belo Monte. Foi o que acabou fazendo Marina sair do governo e do PT e lançar-se a candidata que absorveu os votos de quem não quer nada com a Unigênita de Lula (e sabe que votar em Serra é um fiasco).
Quanto a Serra e Aécio... bem, abraço entre homens é sempre um tanto suspeito: ou nenhum dos dois quer ou um quer mais que o outro. Claro que havia o ressentimento do mineiro. Mas Aécio vai mostrando que é um mestre nas contradanças do grande baile de máscaras da política. É claro que ele vestiu a fantasia de pierrot apaixonado... não antes de ter dado certos saltos de polichinelo. No fundo, ele é um tradicionalista: pois se a hipocrisia e a falsidade são componentes da política, os políticos mineiros tendem a ser perfeccionistas no assunto.
Enfim, dois movimentos belos pela sua simetria.  Chego a suspeitar que a política é, no fundo, a arte de saber perdoar. No melhor momento, claro.

24 de outubro de 2010

A conversão de Homer Simpson

"Toca aí, velhinho!"
Às vezes penso que a vida de um homem sinceramente religioso deve ser mesmo difícil. Quer dizer, digo "religioso" para assinalar aqui todo aquele que, de uma forma ou outra, por meio de uma instituição qualquer, ou mesmo sem ela, vive desse modo curioso que é eleger "valores celestes", concebidos desde o início "sem pecado", e, uma vez que a gravidade é uma lei que não pode ser revogada, procurar na terra, por todos os meios, uma espécie de eco daqueles valores... Para mim, a autoimagem mais honesta de um cristão (que é "o religioso por excelência") é a de um Kierkegaard lendo o mito do sacrifício de Isaac: aquela fé absurda na voz do Grande Outro, fé que se angustia enquanto aguarda que Ele saia de sua mudez e lhe dê uma palavrinha de reconhecimento...
A coisa toda deve ficar ainda mais complicada quando se trata de educar os filhos. Imagine só: o homem já tinha para si mesmo a angústia de encontrar algo do céu na terra; agora, sente que precisa filtrar com o dobro de atenção, em meio a toda a produção cultural que temos disponível hoje, algo que sirva de lenitivo para si e de inspiração daqueles valores para seus rebentos inocentes.
Pois não é que Luca Maria Possati, doutor formado pela Università di Roma "La Sapienza", escreveu em L'Osservatore Romano que Homer Simpson é - católico!
O artigo versava a propósito de um artigo do padre jesuíta Francesco Ochetta (Os Simpsons e a religião, em La Civiltà Cattolica). No resumo do artigo, o padre assinala que a prática religiosa e Deus são temas recorrentes no desenho. Possati, ao que parece, se animou e saiu-se com essa: "Pochi lo sanno, e lui fa di tutto per nasconderlo. Ma è vero:  Homer J. Simpson è cattolico" (poucos o sabem, e ele faz tudo para escondê-lo. Mas é verdade: Homer J. Simson é católico). 
Claro que o padre, cioso de sua reputação, disse que isso era um exagero. Em todo caso, as citações textuais feitas por Possati (se bem que descontextualizadas), trescalam aquela inocência de menino virgem indo à zona pela primeira vez: afinal, nos Simpsons, "a religião e as súplicas a Deus são recorrentes" - escreve o padre jesuíta e cita o articulista italiano.
Cá entre nós: os católicos, quando conservadores (desculpem aqui  o pleonasmo) já são engraçados. Quando ensaiam esses passos mais "liberais" - são mais engraçados ainda. Mas, para a sorte deles, parece que ninguém além de Possati comprou a idéia. Do contrário, ia parecer mesmo que entre eles e Homer haveria algo em comum: a inteligência.

12 de setembro de 2010

Sabedoria popular

Não sei de onde o jornalista Elio Gaspari sacou essa. Se foi do acervo não escrito da sabedoria popular, então está em um lugar bem merecido; se foi do próprio teclado, então faz jus a um lugar de honra numa exposição em praça pública. 
Eu, de minha parte, repito, promovo e assino: 

Quando alguém se mete em briga com palhaço, pode estar certo: o profissional é o saltimbanco; o palhaço, quem sabe?
(Elio Gaspari, "Miro feriu a censura, falta sepultá-la", 12/09/2010)

A propósito: a frase saiu na coluna de hoje do jornalista e serve muito bem de campa para a estúpida tentativa do STF de amordaçar os humoristas. Aquela que tentou impedir piadas com candidatos. 

O canal do STF no Youtube publicou uma materiazinha (sempre com algum "juridiquês") que resume como ficou a situação:



11 de setembro de 2010

Baratas e ratazanas

Quando estávamos em plena guerra fria, divulgava-se que cientistas haviam descoberto que somente as baratas sobreviveriam a um holocausto nuclear. Acredito, porém, que exista uma espécie animal tão resistente quanto as baratas: as ratazanas políticas. Especialmente as associadas ao crime organizado. Uma delas está agora mesmo tentando provar que pode sobreviver em ambiente adverso: José Carlos Gratz.
Esse espécime esteve isolado durante oito anos e esperava-se que sua capacidade de sobrevivência política tivesse esgotado completamente. Ele foi causa de uma verdadeira epidemia de corrupção que infestou e manteve em quarentena (aliás, de muito mais do que quarenta dias...) a Assembléia Legislativa do Espirito Santo. Diga-se de passagem que o local nunca foi politicamente muito salubre. 
Agora, o risco de uma nova epidemia provocada por esse agente patológico, da mesma estirpe de outros como Fernando Collor de Melo e Paulo Maluf, ameaça infestar outra casa legislativa, o Senado Federal. 
Ele e outros pequenos vetores de transmissão estão tentando utilizar blogs e internet (até o Youtube!) para contaminar pessoas desavisadas, utilizando duas estratégias conhecidas de persuasão: a própria vitimização e o ataque a outros espécimes da mesma cepa.  A primeira é para confundir-se entre os leucócitos da vida pública; a segunda é para distraí-los.
Se você já assistiu a algum desses videos ou leu algum desses blogs e sente-se tentado a votar nesse espécime, cuidado: você está doente! Não há ainda um tratamento definitivo. Ouvi dizer que alguns sanitaristas especulam que só umas boas chineladas nos eleitores são capazes de mudar sua ação nociva. 
Mas você pode evitar uma nova epidemia adotando um comportamento simples e eficaz: NÃO VOTE NELE!
Assista abaixo um video educativo sobre como se deu a evolução desse espécime e como sua virulência política cresceu tanto ao ponto de desabar sobre si mesma. 


5 de setembro de 2010

Há uma gota de xenofobia em cada palavra

ou ainda: as besteiras que os jornalistas escrevem. 


É raro abrir um jornal e não se decepcionar com alguma crítica ou "análise" cuspida pela caneta de algum jornalista contemporâneo. 
Dessa vez, minha decepção veio com a (felizmente) curta contribuição de André Barcinski no Ilustrada, caderno da Folha de S. Paulo deste domingo. 
O jornalista tenta, da forma mais tola possível, transformar em uma mera "aventura" o interesse do cineasta James Cameron  pelo drama dos índios do Pará diante da pressão do governo pela construção da hidrelétrica de Belo Monte. Depois de reconhecer a "legitimidade da preocupação" do cineasta (quem ousaria dizer o contrário?), sacou um ridículo argumento de autoridade: Cameron, por não ser um cientista ("ambientalista"), não deve ser levado a sério, por mais que tenha lido sobre o assunto. 
Ora, bolas, quando Cameron decidiu tomar o partido dos índios, tomou uma decisão política. Decidiu defendê-los e usa, a seu favor, um discurso ecológico coerente com seu filme, "Avatar". Pode parecer simplista, e isso pode ser discutido. Mas, se Barcinski fosse inteligente e capaz de deixar sua xenofobia e antiamericanismo de lado, pelo menos nesse assunto, entenderia que Cameron, hoje, representa a, talvez única, oportunidade de os índios que não concordam com a construção da hidrelétrica na região de Belo Monte serem ouvidos enquanto o governo do Estado do Pará e o Federal tentam dissolver a resistência aproveitando-se da falta de poder efetivo das ONGs pró-indios e da situação de "cidadãos de segunda classe" em que os índios vivem há tempos no Brasil. Note que uma matéria da própria Folha de hoje trata do primeiro aspecto. 
A pequena "fantasia" proposta por Barcinski, não sem deboche, de uma Ivete Sangalo pressionando o governo Americano por melhores condições dos brasileiros emigrados para os EUA mereceria ser tratada com mais cuidado, porque é desejável. Vivemos em um mundo progressivamente integrado, e é cada vez menos aceitável usar de argumentos de soberania para justificar desrespeito aos direitos humanos, ainda que alguns governos insistam nisso. Cameron está, no momento, ao colar a imagem dos índios do Pará com os Na'vi de seu filme, fazendo mais em favor daquelas tribos do que o Estado brasileiro fez em muito tempo por todas as tribos em território nacional. Está lhes dando poder político, por meio da opinião da comunidade internacional.
Dizer que o cineasta, tomando essa decisão, julga ser "o rei do mundo" é, no mínimo, delirante. Coisa apropriada para um Ahmadinejad. E mostra debilidade mental (ou pura falta de caráter): quem não se lembra que, quando Cameron disse isso, ao receber o Oscar por Titanic, estava imitando seu personagem em um momento de fantasia voluptuosa no filme premiado (antes do trágico fim)? Barcinski passou por cima disso para fazer do cineasta uma reles espécie de "comissário do governo Bush". Mas o governo Bush se foi, Barcinski!
É uma tolice deslegitimar as ações de Cameron só porque ele é norte-americano. Precisamos entender, de uma vez por todas, que indivíduos norte-americanos não refletem necessariamente o posicionamento do governo americano. O que, aliás, já deveria estar claro para todos desde a guerra do Vietnã. E o mesmo poderia ser dito dos brasileiros, se não estivesse a cada dia mais difícil perceber dissidentes reais na imprensa brasileira.  
Vou torcer, no entanto, que o texto do jornalista tenha surgido num daqueles momentos de cansaço, em que alguém na redação parcebe, na última hora, que vai ficar um buraco na diagramação da página. Vou torcer para que Barcinski tenha sido escolhido de última hora, porque estava de bobeira na redação, para preencher aquele pequeno espaço de papel e viu-se na urgência de dar alguma coisa ao editor. Ainda assim, digo que teria sido melhor meter ali um calhau qualquer. Pois às vezes é preciso muito pouco, de um ponto de vista ético, para fazer declarações desastrosas. 
Sei que para um jornalista essa pode ser uma lição difícil, mas ela deve ser aprendida: entre dizer qualquer bobagem e calar, é melhor calar. O silêncio, às vezes, é melhor companhia para o pensamento.

4 de setembro de 2010

Pisou na merda? Sorria! - É ano de eleição 2

Ser dilmista é ter falta de caráter, ser serrista é não ter escrúpulos. Mas ser governo é dominar a "filosofia do absurdo".
Diante do escândalo que corre a imprensa sobre o vazamento dos dados fiscais da filha de José Serra, Guido Mantega solta uma dessas: "vazamentos sempre ocorreram". Sempre ocorreram!? O que vocês aí em Brasília fizeram com a minha declaração do imposto de renda?!
Não sei quem anda assessorando o ministro, mas seria melhor demiti-lo. Mesmo que a declaração seja verdade, ela é injustificável, e é menos justificável ainda uma coisa dessas possa ser tratada como "normal". 
O ministro tem, talvez, uma ambição pela filosofia, aquela de alguns séculos atrás. Ele gosta de declarações categóricas. Extenuado diante dos ataques à segurança da Receita Federal, disse que "não há sistema inviolável". Ora, pode até ser que não haja, e pode até ser que não haja pessoas incorruptíveis. Só mesmo uma platéia idiota compra um discurso desses. 
Mas... é ano de eleição, não é? O governo tem popularidade, não tem? Então: vamos de absurdo!

Pichação inteligente

A essa altura você já viu o video do "Serra comedor" aí embaixo. Eu só vi hoje e adorei.
Coisas assim me dão ânimo na internet. É um tipo novo de pichação, inteligente e bem sacana, que vai muito além de pintar o dente de preto em cartazes de candidatos.
Sem contar que o slogan da campanha dele acaba ganhando um novo sentido: "é a hora da virada!" - cuidado com esse cara! Não perdoou nem a D. Maria!



29 de agosto de 2010

Sobre paixão, conhecimento e ensino - do ponto de vista de um aluno

- Foi pra isso que eu acordei cedo?
Somente hoje, doze dias depois de escrita, leio a postagem de Sabine Righetti  no Blog de Ciência da Folha. Isso me animou a voltar a este meu rincão cibernético para desbastar o capim bravo do abandono que já crescia por aqui e para revolver algumas lembranças sobre os tempos de escola. 
A jornalista formou-se em uma universidade bem melhor do que aquela em que me formei. Por algum motivo, escolheu o jornalismo (que escolhi também e abandonei, por algum motivo). E tem praticamente a mesma idade que eu - o que acentuou o eco de seu texto em mim. 
Eu também tive um segundo grau aborrecido, não só com relação à física, mas em relação às ciências em geral. Acredito que muitos colegas daquele tempo tenham sentido o mesmo, inclusive os que se dedicavam às disciplinas voltadas para as ciências de base e para a matemática. Acredito, ainda, que estes últimos só mantinham seu interesse por elas porque tinham um motivo pessoal muito forte ou porque tinham um caráter pragmático decisivo: queriam ser engenheiros, médicos, veterinários, etc.; logo, precisavam de física, biologia, matemática, etc. 
Em tempo: estudávamos todos em escola particular, e vínhamos, em expressiva maioria, do ensino fundamental da rede particular. Não necessariamente o melhor, admito. 
Talvez o que me impediu de tornar um completo ignorante nessas matérias tenha sido uma curiosidade natural, daquelas que folheia o conteúdo das lições que estão mais adiante na apostila ou no livro. Mas as aulas eram um quase completo aborrecimento. 
A minha curiosidade, inclusive, produzia sonhos. Eu sonhava com o dia em que estaria em uma escola em que aulas de química sobre cálculos de isomeria seriam demonstradas com a ajuda de experimentos em laboratório para mostrar, a olhos vivos, a estabilização de uma reação. Eu sonhava com aulas de botânica dadas em meio a estufas e herbários, e zoologia com dissecções e estudos de morfologia em animais vivos. Eu ansiava que alguém me mostrasse, num computador, o quão útil era o cálculo de matrizes para a computação, como um professor de matemática, de passagem, disse uma vez em sala de aula. 
Certa vez, quase pensei estar sonhando quando um professor, vindo do nada, e sem anúncio, decidiu realizar em sala de aula a reação de uma solução de nitrato de prata à luz, acompanhada de sua notação científica. Sempre que pude, repeti à exaustão a experiência nas aulas de fotojornalismo, na faculdade (embora seja bem verdade que, naquela época, a estética me interessasse mais do que a ciência...).
O resto, porém, foram apenas sonhos.
Também convivi, como a jornalista, com um sem fim de musiquinhas e outros recursos mnemônicos criados por um ou outro professor oportunista (um, eu me lembro, chegou a gravar um CD. Promovia-o nas suas aulas...). Engraçado pensar, hoje, que toda aquela poluição de "macetes" ocupando a memória sem relação entre si escoou rapidamente para o ralo do esquecimento, depois do vestibular. Por sorte, uma ou outra pedra de conhecimento "do bom" permaneceu para que eu pudesse, ao menos, saltar de uma para a outra e costurar relações, quando foi preciso.
Somente uma coisa veio em meu auxílio no segundo grau: a literatura. Nada poderia ser mais conveniente àquela idade em que nada parece confiável. Mas mesmo a literatura, ou pelo menos sua parte mais importante, tive de conhecê-la por conta própria, e quase por acidente. Não duvido que isso tenha determinado minha escolha pelo jornalismo - um tanto equivocadamente, admitamos. 
Mas, o mais desconcertante de pensar, hoje, quando vou lentamente reconciliando interesses literários com científicos, é ver o quanto esse aborrecimento pode ser causa de um fenômeno curioso entre universitários (principalmente os de humanidades, mas não só): um arrogante desprezo ou um temor sem ponderação diante de tudo o que pareça ciência ou pensamento científico. Vi isso ainda mais claramente quando decidi fazer, como segunda graduação, filosofia. De certa forma, esse comportamento aberrante me serviu de espelho e de auto-avaliação. Vi muita gente se refugiando em qualquer filósofo que, numa leitura rápida e pouco consistente, poderia dar "guarida contra a ciência". Vi, ainda, um comportamento deletério da parte dos professores de filosofia: ou estimulavam (conscientemente ou não) tal comportamento, formando "igrejinhas" em torno de si, ou quando, por força da cátedra, vinham em defesa do pensamento científico, agiam de forma tão imbecil e canhestra, que ficava realmente difícil dar-lhes razão - a menos que se fosse tão imbecil e sem talento quanto.
E, quando digo que isso não afeta apenas as humanidades, lembro-me do que um professor universitário de biologia me disse, certa vez, sobre seus alunos de medicina, enfermagem (e mesmo de biologia): um crescente número de adeptos do criacionismo "científico". Não é preciso ser um ateísta militante como um Dawkins para perceber que o criacionismo, em ciência, é uma construção argumentativa tão equivocada como aquela "aposta na existência de Deus" proposta por Pascal: inútil para o crente, que já possui fé na existência; divertimento para o descrente, ao ver um crente fervoroso agindo como croupier. No entanto, é preciso dizer que a aposta de Pascal ainda eram bem mais elegante, em sua forma de expressão, do que o são muitos criacionistas por aí...
Acho que Sabine Riguetti foi mais feliz do que eu. Teve melhor visão, creio. Eu cheguei a ouvir falar em jornalismo científico na falculdade, mas, naquela época, eu vivia imerso nesse ceticismo atoleimado com relação à ciência que obnubila a cabeça de muitos universitários ainda hoje. Fico feliz com sua felicidade, sem hipocrisia. 
Hoje, embora enxergue problemas teóricos ainda a ser esclarecidos sobre o chamado "jornalismo científico", que vão além da simples desconfiança (às vezes alimentada por exemplos concretos...) dos cientistas com relação à capacidade do jornalismo de reportar bem o estado da ciência, consigo ver a importância da defesa da divulgação científica feita por um paladino intergalático de Cosmos, como Carl Sagan. Afinal, que melhor contribuição estética a ciência nos daria do que a de vermo-nos como dentes-de-leão vagando, com nossas sementes de dúvida e de desejo, pelo universo?

16 de julho de 2010

CAPES e CNPq dão o braço a torcer

Depois de muito tempo fazendo vista grossa, a CAPES e o CNPq, principais agências de fomento à pesquisa em instituições de ensino superior, deram o braço a torcer: resolveram admitir que o valor de suas bolsas não é suficiente para manter, com exclusividade, a massa da mão de obra intelectual em formação do país. A partir de hoje, todos os estudantes de pós-graduação do país poderão receber, além da própria bolsa de estudos, uma "complementação financeira" (para a qual ninguém estipulou um teto...) "desde que se dediquem a atividades relacionadas à sua área de atuação e de interesse para sua formação acadêmica, científica e tecnológica" (veja a portaria).
O texto da portaria cria uma ampla margem discricionária e subjetiva para que orientadores e coordenadores decidam quais atividades atendem às duas condições acima. Muito provavelmente, as áreas de Ciências Humanas e de  ciência de base que não têm muitas vagas no mercado de trabalho estarão mais livres para permitirem que seus alunos trabalhem como professores (o que não raro significa muitas horas de aula), enquanto parte da área de Ciências da Saúde poderá ver os seus em turnos hospitalares noite adentro. Certamente ainda será difícil provar que estudar engenharia elétrica e trabalhar como manicure são atividades relacionadas. Mas a mensagem é clara: "tá bom, pessoal, podem parar de fingir. Nós sabemos que vocês continuam trabalhando e recebendo um 'por fora'. Agora pode". 
Hoje, os alunos de programas de pós-graduação (que não são os únicos a receber bolsas, mas certamente são a massa crescente de demanda) estão recebendo entre R$ 1.200,00 (mestrado) e R$ 1.800,00 (doutorado), graças a um aumento que vigora há cerca de dois anos. Só alguém realmente muito estúpido pode achar que esses valores são suficientes, especialmente quando consideramos que, por exemplo, a maioria das bolsas concedidas em 2009 pela CAPES e pelo CNPq esteve concentrada no Sudeste, em geral em grandes pólos urbanos (salvo algumas exceções em Minas Gerais e São Paulo), onde está a maioria das principais instituições de ensino do país e onde o custo de vida é sabidamente mais alto. Além disso, hoje um servidor público ocupando um cargo de nível médio em uma universidade estatal ou em um instituto abrangido pela carreira de Ciência e Tecnologia recebe, respectivamente, cerca de R$ 1.500,00 ou R$ 1.300,00 (mas podendo, neste último caso, facilmente chegar a 2.500,00 com gratificações) no início da carreira. O aumento do valor das bolsas, por outro lado, é fixo e depende exclusivamente de um ato administrativo que nem é obrigatório nem precisa ter qualquer relação com índices de inflação. Com isso, o Estado, que pretendia incentivar a formação de quadros profissionais de excelência, acaba empurrando nossos melhores cérebros para uma carreira burocrática menor. E o pior: segmenta socialmente ainda mais o acesso e a permanência na pós-graduação - pois o aluno, para conciliar seus gastos com livros e outros materiais de pesquisa com suas necessidades básicas, acaba, em mais de um momento, recorrendo à família. Não é à toa que nem a CAPES nem o CNPq fazem estatísticas sociais da pós-graduação. Fica a sugestão para os cientistas sociais cruzarem os dados da Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD) do IBGE com os indicadores de bolsas de fomento dos dois órgãos. Eu, que já convivi profissionalmente com as necessidades de bolsistas, digo que é preciso um tanto de coragem e disposição para declarar independência financeira e terminar um mestrado simultaneamente. 
Não custa lembrar que um estudante de pós-graduação não é apenas um estudante, como em geral ocorre na graduação (com exceção dos que passaram pelo ensino médio profissionalizante), mas um profissional formado. Além do mais, a sua atividade discente está intimamente vinculada à produção  de seu orientador, laboratório ou oficina em que trabalha. Ele não "apenas" estuda, como qualquer desinformado poderia pensar. E, cá entre nós: era um bocado de ingenuidade exigir exclusividade de um profissional formado pagando valores bem mais baixos que os de mercado. 
O preocupante nisso tudo não é se os estudantes vão ou não se dedicar menos aos seus projetos de pesquisa. Muitos já vêm, com ou sem o conhecimento de seus orientadores, mantendo atividades paralelas para se sustentarem. E muitos conseguem concluir seus cursos. O preocupante é que as duas principais agências de fomento nacional, com isso, estão dando sinais de esgotamento. Provavelmente, já vêm há algum tempo tendo que escolher se destinam mais verba ao custeio dos estudantes ou ao investimento institucional nos programas - o que é péssimo, pois ambos são igualmente necessários. Um garante distribuição social de acesso; o outro, a qualidade da atividade de pesquisa. Não acho que seja por acaso que ambas tenham tomado essa decisão este ano, depois do considerável aumento com os gastos com bolsas em 2009 com relação aos anos anteriores. Não vem coisa boa por aí.
Muitos vão respirar aliviados. Acho, porém, que o momento é de prender a respiração.


+ essa

Uma curiosidade: o Programa de Demanda Social da CAPES, que tem um caráter generalista (não capilariza os recursos por área, como a maioria dos editais do CNPq) e que teve seu regulamento reformulado este ano, prevê que as bolsas destinadas aos programas de pós-graduação por ele atendidos sirvam para manter, "em tempo integral, alunos de excelente desempenho acadêmico". Bem, realmente ainda não consegui imaginar uma situação em que possa haver uma atividade em tempo integral e uma outra paralela. "Integral" ainda diz respeito a "inteiro", não? Ou será que para a CAPES existe alguma parte além do todo?
Parece que nossas agências de fomento estão tão preocupadas com um possível colapso financeiro vindo por aí que já nem sabem mais como estão regulamentando a concessão do fomento...

2 de julho de 2010

Façam suas apostas!

Quem tem mais motivos para ganhar amanhã? Argentina ou Alemanha? Nossos hermanos têm motivos puramente esportivos para ganhar: querem ganhar o tricampeonato e subir mais um degrau na escada que os separa do Brasil. Além do mais, seu último título de campeão no torneio já tem 24 anos...
Por outro lado, a Alemanha está diante da segunda chance de realizar algo que viria a calhar para o país: ostentar o título como "Alemanha" e não mais "Alemanha Ocidental ". Nós, aqui no Brasil, sabemos bem o quanto um título desses pode ajudar a reforçar laços de unidade nacional e, com eles, amenizar diferenças sociais. Duas coisas que são do interesse daquele país desde 1989. Além disso, do ponto de vista estritamente esportivo, sua última vitória foi em 1990 e foi derrotada em casa no último torneio (amargando um terceiro lugar).
Se eu organizasse apostas, talvez ganhasse um bom dinheiro com esse torneio, independentemente do resultado.
Em todo caso, amanhã acontecerá o principal jogo da Copa. Dependendo de seu resultado, saberemos do lado de quem Deus está; ou melhor, qual Deus e de quem ele está aceitando suas "oferendas"...

27 de junho de 2010

O Estado brasileiro e a biblioteca-patrimônio

Se posso concluir algo do que venho notado desde o dia 25 de maio deste ano, é que há um comportamento padrão no Brasil quando se trata de acervos bibliográficos e documentais: descaso, obtusidade. Em primeiro lugar, nosso parlamento mostrou-se vagaroso demais e muito pouco eficaz ao criar uma lei que obriga que todas as instituições de ensino tenham uma biblioteca. Em segundo, falta bibliotecas pelo país em boas condições para o uso. Em terceiro, vimos uma faculdade tradicional da principal instituição de ensino superior do país, a Faculdade de Direito da USP, relegando seus livros a caixas, ao mofo e às infiltrações de um prédio inadequado para a vivência acadêmica. Ontem e hoje, soubemos, com imenso desagrado, o descaso do Ministério da Justiça com seu acervo das obras de Goethe (talvez a coleção mais completa da América Latina) e o do Arquivo Nacional em Brasília com documentos do período da Ditadura Militar na fila para a triagem. Temos aí demonstrações do executivo e do legislativo nacionais, de uma autarquia federal e outra estadual e todos os municípios criando um cenário, no mínimo, decepcionante. 
Gosto de livros. Acho que posso dizer por que todo esse cenário é preocupante. Porque ele me faz recordar de toda minha experiência em procurar por livros. 
É claro que temos ainda boas situações de conservação e de acesso, apesar de as condições de vivência serem, em geral, insatisfatórias. 
Isso já nos mostra um padrão: o Estado brasileiro, qualquer que seja o seu nível (Federal, Estadual ou Municipal), pensa que promover uma biblioteca se resume a montar um acervo organizado e disponibilizar controladamente o acesso a esse acervo, criando regras de empréstimo e consulta, etc. É claro que isso é fundamental, mas está longe de ser suficiente. Porque essa é a visão patrimonial de uma biblioteca, não é a sua dimensão vivencial. 
Conheci alguns diretores de bibliotecas para quem essa dimensão vivencial é simplesmente desprezível. Basta permitir que os alunos possam tomar o livro emprestado e sejam obrigados a devolvê-lo. E basta. 
Diatne disso, não posso deixar de lembrar de como comecei a frequentar bibliotecas. 
Morando em uma cidade culturalmente precária (e que nunca aceitou esse fato), comecei a me interessar intensamente por livros por volta dos 14 anos (aquela idade difícil). Para poder ler o que me interessava, tinha de recorrer à biblioteca municipal pois, embora houvesse uma biblioteca (bem pequena) em minha escola (particular, diga-se), esta nem sempre estava aberta e, quando estava, tinha um acervo insatisfatório (os livros interessantes ficavam inacessíveis e os livros acessíveis já estavam ficando insatisfatórios para mim). 
A biblioteca municipal, por sua vez, funcionava num prédio histórico antigo e pouco adequado para a conservação e a frequentação. Apesar disso, conseguia tomar emprestados alguns livros, apenas de literatura (o que já era alguma coisa para começar a formar o meu gosto). Tinha um jardim simpático, sujeito a chuvas, mas era pequena demais para juntar alunos de séries iniciais e adolescentes procurando respostas sob o mesmo teto. Assim, nós que líamos por interesse e não por obrigação, quase sempre achávamos mais vantajoso levar o livro para ler em casa. 
Creio que não seria demais dizer que sempre encontrei essa situação de pouca receptividade em todas as bibliotecas por que passei, mesmo as melhor equipadas. O resultado cultural disso é evidente: acessamos os livros, mas não acessamos outras pessoas que podem estar procurando o mesmo que nós. 
Por isso, quando vejo diretores de biblioteca tentando tornar sua biblioteca um lugar interessante promovendo eventos, lançamentos de livros e outros eventos parecidos, ou mesmo tentando tornar a biblioteca um centro de acesso à internet, não deixo de esboçar um riso irônico. São casos de boas intenções, e só. Não são inválidos, mas não tocam no ponto mais importante. 
Quando falo de um aspecto vivencial de bibliotecas, penso nas pessoas que vão a elas em grupo e as que vão sozinhas. Para as primeiras, é fundamental que a biblioteca seja confortável o suficiente para segurá-las lá, para que pesquisem, estudem e se divirtam lá enquanto procuram seja lá o que for. Que elas possam fazer do lugar uma espécie de sede imaginária de seu pequeno clube. Para os mais solitários, o conforto de um lugar onde se possa acidentalmente compartilhar angústias e tédios. E uns chistes eventuais. Tudo isso sem atrapalhar os necessários espaços de silêncio que uma bilbioteca deve abrigar, para os que estão naquela fase de mergulho numa questão.
Tudo isso está bem distante de nossas bibliotecas. Elas não sabem conjugar espaços de conversa interpessoal e de solidão. Elas não conseguem, por isso, tornar-se o centro magnético de nossa vida cultural. 
Agregar o acesso à internet é um recurso precioso e importante, especialmente enquanto o acesso ao computador e à banda larga ainda não se popularizou no país. Mas é ainda o mesmo aspecto patrimonial. 
As bibliotecas do nosso país deveriam esforçar-se para ser como aquelas livrarias históricas, como a José Olympio, confortável para atrair literatos e escritores em geral em seus momentos de ócio ou de pesquisa. Lugares onde as pessoas possam demorar-se. 
Tudo isso nos falta porque temos pouca intimidade com os livros, e continuaremos com pouca intimidade enquanto isso nos faltar. 
Disse que gosto de livros. Disse do que sinto falta no contato com o lugar onde encontro os livros que procuro. Agora, quero dizer o que encontro neles - não nos lugares, mas nos livros. 
Só procurei os livros porque me interessei por eles. Isso foi quase acidental. Mas, uma vez ocorrido o acidente, quis reproduzi-lo ao infirnito. Por uma razão simples: fiquei mais forte. Se, por um lado, por me faltar qualquer orientação em minha busca por livros (eu nem saberia dizer o que procurava, com certeza), eu tenha ficado mais solitário por conta do tempo maior que sentia necessidade de dedicar a eles, por outro, meu desenvolvimento intelectual foi sensivelmente melhor que o de muitos colegas de escola que não se dedicaram a essas horas solitárias. Nunca teria trocado minha vida pela deles, desde então. Por isso, entendi: há um poder depositado nos livros, como o poder de sementes. Pegamos tais sementes ali depositadas e as engolimos e fazemo-las crescer a partir de nosso próprio substrato e elas se desenvolvem, cravando raízes em nós e deixando nosso próprio substrato mais fibroso, mais resistente, mais forte, menos  cediço.  Alguns podem chamar isso pelo nome de autonomia. Eu prefiro dizer que os livros me deram a força necessária para aspirar à liberdade.
É por isso que considero todos os fatos decepcionantes vistos até hoje crimes de lesa-liberdade. Aos que considerem isso um excesso, digo que não passam de tolos. "Será que o cuidado com a coleção goetheana faria tanta diferença?", poderiam perguntar. Bom, é claro que os estúpidos não são capazes de reconhecer a grandeza da vida de um homem de letras e ciências como Goethe. E, por outro lado, se alguém é capaz de deixar uma coleção de tal qualidade mofar, então é capaz de tudo. Até de vender livros didáticos como papel para reciclagem, como já aconteceu. 
O Estado brasileiro não quer que seus cidadãos aspirem à liberdade. Ele quer dotá-los de igualdade social, e só. Não quer que as diferenças cresçam, porque pensa que as diferenças são destrutivas, como o talento. Então, nossos deputados não se importam tanto se nossas escolas terão bibliotecas, o Executivo não se importa com os livros que estão sob sua responsabilidade, e nossas instituições promotoras de acervos não se importam tanto com nossa história e com nossos estudantes. Subsiste, parece, aquela desconfiança imperante em nossa última ditadura diante de uma possível reunião acidental de pessoas inteligentes. Ainda que isso se tenha tornado legal.

10 de junho de 2010

Papai mandou...

Cada dia que passa o PT me parece menos um partido de trabalhadores e mais uma família tradicional, em que o pai dá a última palavra. Mas sem macarronada de domingo (a filharada vai se contentando com engolir sapos).
Depois de intervir em Minas e dar um sonoro "não"  (recebido com xilique, mas acatado) ao manifesto do PT-MG por uma chapa puro sangue, agora é a vez do Maranhão. Contrariando a decisão do diretório maranhense, que havia decidido por uma aliança mais à esquerda (formalmente falando, afinal, é o PC do B...), Papai Lula mandou o pessoal parar de brincadeira e disse que a vez era da sua Unigênita . Ou seja: todo apoio a Rosena Sarney.
Lula evidentemente preza os amigos. Dilma, a Unigênita, caso confirmada como herdeira, já vai desenhando seu espólio político. Vai ter que conviver com os antigos parceiros do papai...


Exemplo de bom filho

Quem se mostrou um exemplo de obediência filial até o momento foi o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Operador da polêmica coligação pró-Márcio Lacerda em 2008, contava ter garantido seu nome para o governo do Estado em 2010. Haveria apenas uma questão doméstica a ser resolvida com Patrus Ananias. No final das contas, a pedido do Pai, ficou sem governo e sem vice-governo.  Claro que reclamou um pouco. Mas, no final, abaixou a cabeça, gritou um "Viva Dilma" e aceitou uma vaguinha no Senado. Comovente exemplo de obediência.

5 de junho de 2010

O Irã fala duas línguas

Depois de tomar conhecimento das declarações do presidente do Irã, feitas ontem, de que seu governo é "o mais democrático do mundo", suspeito que o país atualmente fale duas línguas. Pelo menos, do ponto de vista político. 
A língua oficial, a do presidente Mahmoud Ahmadinejad, é uma língua difícil de compreender. Quando trata de democracia, parece reeditar aquele conto de Borges, em que Averróis tenta entender o significado das palavras "tragédia" e "comédia", enquanto escreve seus comentários à obra de Aristóteles. Tais palavras eram-lhe estranhas, porque as formas culturais às quais elas se referem eram estranhas ao mundo Árabe. Essa estranheza é descrita alegoricamente no irônico diálogo entre o viajante Abulcásim e o alcoranista Farach. Abulcásim, que tinha alcançado a China, tenta explicar durante um jantar a visão que teve de uma representação teatral assistida por ele em Cantão. Ninguém o compreende, inclusive Averróis e Farach, que estavam presentes. Farach, ao contrário, desdenhou do fato, reputando inútil uma narração feita por muitas pessoas quando um único narrador "pode contar qualquer coisa, por mais complexa que seja". O alcoranista não via nenhuma vantagem em que lhe mostrassem uma história, em vez de apenas fazer referência a ela. 
Ahmadinejad parece ter a mesma dificuldade que Averróis, só que com a palavra "democracia". Sua língua oficial não consegue compreender bem do que se trata. 
A outra língua falada no país não tem um nome, ao certo. Mas claramente não é oficial. Ela é utilizada nas ruas, durante os protestos em Teerã e, me parece, é usada por alguns artistas, como Marjane Satrapi e os autores anônimos de O Paraíso de Zahra, entre outros. É uma língua que está ficando cada vez mais expressiva, infelizmente, ao dar vazão à dor. É também uma língua que, apesar disso, parece conseguir compreender, depois do engodo da Revolução, o significado de "democracia". É uma língua de gente que, como o Abulcásim do conto de Borges, conheceu a cultura de outros países, e ainda viu que havia algo de bom nisso. 
A língua oficial contenta-se com fazer uma pálida referência à democracia e desdenha, como Farach, das coisas que são descritas pela outra língua. E quando esta última insiste em falar e exige que mostrem a dita democracia, a primeira rosna. 
É difícil dizer por quanto tempo os iranianos permanecerão ainda bilíngues. Pois, se a língua oficial domina com mão de ferro dentro do país, dentro das casas e ao redor do mundo é a outra língua que se expressa melhor. 

Enfim, começo a suspeitar também que a simpatia de Lula por Ahmadinejad vá além das vantagens estratégicas, como alega a parcela nacionalista da inteligência do PT. Há uma afinidade na linguagem de ambos. Quero dizer, ambos tem um mau gosto por hipérboles. 

3 de junho de 2010

O som das taças vazias

Um colega meu estava a fim de enriquecer. Quem não está? Então, ciente de que para ser rico no Brasil é preciso ter amigos ricos, começou a frequentar um grupo filantrópico com um nome parecido com Coletivo de Defesa da Humanidade pelo Progresso do Brasil. Basicamente, um ajuntamento de gente com as contas bancárias muito bem resolvidas e com tempo de sobra para estudar a história do país e os destinos do Homem. E quando não estavam em seus estudos, naturalmente, praticavam algumas ações de ajuda aos pobres. Muitos ali, como me contou depois meu colega, não conseguiam aceitar que o governo brasileiro não tomasse atitudes mais consistentes em prol do progesso, como era nas décadas de 60 e 70.  Naquela época o país crescia de verdade, etc. e tal. Como se vê, não era gente muito jovem...
Era perfeito, pensou meu colega. Afinal, embora não fosse rico como os demais, podia aproveitar os surtos de consciência filantrópica daquele pessoal e introduzir-se como o "irmão menor", o "café-com-leite", que ganharia autonomia graças ao esforço do dito coletivo. E, como queria ser rico, podia aproveitar para aprender seus hábitos, o que só reforçaria os laços num círculo virtuoso do tipo "vocês me deixam entrar - fico parecido com vocês - vocês me aceitam - fico mais parecido com vocês". Não podia ser melhor. Se a vida nunca tinha lhe indicado uma porta aberta, ali sim estava a janela que ele encontrara por si só.
Depois de muito tempo sem ver meu colega, reencontrei-o dia desses. Para surpresa minha, sua cara não era das melhores. Na verdade, foi ainda mais surpreendente encontrá-lo num ponto comum a nós dois, um bar sem muito status, bem plebe rude mesmo. Enfim, um copo-sujo. Batemos um papo ligeiro, perguntamos por um ou outro nome da faculdade. Eu não podia evitar e perguntei: "E o tal coletivo?" "Bem", ele me respondeu, dando uma mexidinha no pescoço, como que para colocar uma vértebra no lugar, "parei de ir". 
- Parou? Ou te expulsaram? (Note-se que sei aproveitar os benefícios da intimidade). 
- Não, parei; parei mesmo. Admiti que não dava mais pra mim. 
Então, para me fazer crer realmente que não fora expulso, contou como tinham sido seus dias em meio àquela nata social gordurosa e entediada.
O tal Coletivo não tinha intenções somente práticas. A sua defesa da humanidade incluía aspectos espirituais. Eles entendiam que o país e o mundo estavam emitindo a cada dia um autêntico Save Our Souls, e interpretavam literalmente o segundo "S". Havia que salvaguardar o pão, mas não só o pão: também as almas tinham que ser guardadas. Afinal, toda calça tem o bolso direito e o esquerdo. Para ter sucesso integralmente em suas ações, o Coletivo desenvolvera certas crenças místicas próprias, e rituais sérios e compatíveis.
Meu colega chegou ao estágio de introdução aos "mistérios" do grupo. Sem entrar em muitos detalhes, me descreveu a iniciação: não havia um mestre para comandar os ofícios, já que tomavam-se por iguais (o que é bastante compreensível, afinal, após possuir uma certa quantidade de dinheiro e poder, todos se parecem muito...). Depois de uma breve sessão de abraços discretos terminados com a imposição recíproca de mãos  sobre o lado esquerdo do peito dos pares que se abraçavam, todos se reuniam em círculo de mãos dadas por alguns minutos, quando permaneciam em silêncio e de olhos fechados. A seguir, um criado entrava, vestido de branco, com algumas taças vazias, e as distribuía entre os presentes, que iam abrindo os olhos. "Simbolizava a abertura para o mundo", disse meu colega, "as taças vazias eram metáforas de nós mesmos". Em seguida, cada participante tangia sua taça vazia na dos dois vizinhos, e fazia ressoar o "Tim-tim da humildade", que precedia a etapa seguinte, quando as taças seriam cheias com água mineral e trocariam-nas entre si, no mais perfeito espírito comunal. 
- O som daquelas taças vibrando pareceu-me quase que ensurdecedor - contou-me. - Para dizer a verdade, não sei o que era mais penoso: ouvir aquele tilintar cheio de humildade grandiloquente ou aguentar as conversas fúteis com aquela gente. Fiquei com saudade de nossos papos bestas de faculdade. Pelo menos eram mais interessantes, acredite. 
Bem, evidentemente meu colega não enriqueceu. Não que eu saiba. Vali-me mais uma vez de nossa intimidade para tirar um sarro de sua cara, me levantei e deixei-o lá no bar, sozinho e olhando para um copo ordinário de cerveja. Um copo cheio.

2 de junho de 2010

Um jantar sem mesa - para muitos

Não é que Roberto Jefferson reapareceu? O ano eleitoral é ótimo para rever velhos amigos. Pensando nisso, Jefferson decidiu vir até Lula para cobrar a janta que ele acha que merece.
Uma coisa é certa: se rolar a janta, os dois não precisarão de mesa. As caras dos dois servem de tampo.