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29 de outubro de 2010

E o melhor do segundo turno foi...

Já que essas eleições não podem mesmo ser levadas a sério, acho que cada um deveria fazer a sua seleção de "melhores momentos". 
Tudo bem, tudo bem, todos os momentos foram péssimos. A começar pela polarização falsa entre Dilma e Serra. Estamos de acordo nisso. 
Mas, aproveite que o período de baixarias midiáticas está acabando, ponha o seu senso de humor para se alongar e escolha seu "melhor momento".

Serra que (disse que) amava Aécio que ama
Dilma que (disse que) ama Marina que
(sorte nossa) não ama ninguém. 
Para mim, o impagável veio no segundo turno. Num movimento sincronizado que teria deixado o próprio Judas com inveja, eis que vemos os dois protagonistas descaradamente estendendo as mãos para aqueles que, pouco antes das eleições, fizeram questão de esmagar com todo o peso que tinham (e com algum que pegaram emprestado): Serra correu para os braços de Aécio, porque precisa de Minas no segundo turno como nunca, e Dilma tentou fazer um chamego em Marina. Ora, é claro que os dois procuraram Marina. Mas o movimento de Dilma tinha um gostinho especial: afinal, foi ela que passou como um trator sobre o Ministério do Meio Ambiente (quando Marina era a titular) para aprovar a Hidrelétrica de Belo Monte. Foi o que acabou fazendo Marina sair do governo e do PT e lançar-se a candidata que absorveu os votos de quem não quer nada com a Unigênita de Lula (e sabe que votar em Serra é um fiasco).
Quanto a Serra e Aécio... bem, abraço entre homens é sempre um tanto suspeito: ou nenhum dos dois quer ou um quer mais que o outro. Claro que havia o ressentimento do mineiro. Mas Aécio vai mostrando que é um mestre nas contradanças do grande baile de máscaras da política. É claro que ele vestiu a fantasia de pierrot apaixonado... não antes de ter dado certos saltos de polichinelo. No fundo, ele é um tradicionalista: pois se a hipocrisia e a falsidade são componentes da política, os políticos mineiros tendem a ser perfeccionistas no assunto.
Enfim, dois movimentos belos pela sua simetria.  Chego a suspeitar que a política é, no fundo, a arte de saber perdoar. No melhor momento, claro.

12 de setembro de 2010

Sabedoria popular

Não sei de onde o jornalista Elio Gaspari sacou essa. Se foi do acervo não escrito da sabedoria popular, então está em um lugar bem merecido; se foi do próprio teclado, então faz jus a um lugar de honra numa exposição em praça pública. 
Eu, de minha parte, repito, promovo e assino: 

Quando alguém se mete em briga com palhaço, pode estar certo: o profissional é o saltimbanco; o palhaço, quem sabe?
(Elio Gaspari, "Miro feriu a censura, falta sepultá-la", 12/09/2010)

A propósito: a frase saiu na coluna de hoje do jornalista e serve muito bem de campa para a estúpida tentativa do STF de amordaçar os humoristas. Aquela que tentou impedir piadas com candidatos. 

O canal do STF no Youtube publicou uma materiazinha (sempre com algum "juridiquês") que resume como ficou a situação:



11 de setembro de 2010

Baratas e ratazanas

Quando estávamos em plena guerra fria, divulgava-se que cientistas haviam descoberto que somente as baratas sobreviveriam a um holocausto nuclear. Acredito, porém, que exista uma espécie animal tão resistente quanto as baratas: as ratazanas políticas. Especialmente as associadas ao crime organizado. Uma delas está agora mesmo tentando provar que pode sobreviver em ambiente adverso: José Carlos Gratz.
Esse espécime esteve isolado durante oito anos e esperava-se que sua capacidade de sobrevivência política tivesse esgotado completamente. Ele foi causa de uma verdadeira epidemia de corrupção que infestou e manteve em quarentena (aliás, de muito mais do que quarenta dias...) a Assembléia Legislativa do Espirito Santo. Diga-se de passagem que o local nunca foi politicamente muito salubre. 
Agora, o risco de uma nova epidemia provocada por esse agente patológico, da mesma estirpe de outros como Fernando Collor de Melo e Paulo Maluf, ameaça infestar outra casa legislativa, o Senado Federal. 
Ele e outros pequenos vetores de transmissão estão tentando utilizar blogs e internet (até o Youtube!) para contaminar pessoas desavisadas, utilizando duas estratégias conhecidas de persuasão: a própria vitimização e o ataque a outros espécimes da mesma cepa.  A primeira é para confundir-se entre os leucócitos da vida pública; a segunda é para distraí-los.
Se você já assistiu a algum desses videos ou leu algum desses blogs e sente-se tentado a votar nesse espécime, cuidado: você está doente! Não há ainda um tratamento definitivo. Ouvi dizer que alguns sanitaristas especulam que só umas boas chineladas nos eleitores são capazes de mudar sua ação nociva. 
Mas você pode evitar uma nova epidemia adotando um comportamento simples e eficaz: NÃO VOTE NELE!
Assista abaixo um video educativo sobre como se deu a evolução desse espécime e como sua virulência política cresceu tanto ao ponto de desabar sobre si mesma. 


4 de setembro de 2010

Pichação inteligente

A essa altura você já viu o video do "Serra comedor" aí embaixo. Eu só vi hoje e adorei.
Coisas assim me dão ânimo na internet. É um tipo novo de pichação, inteligente e bem sacana, que vai muito além de pintar o dente de preto em cartazes de candidatos.
Sem contar que o slogan da campanha dele acaba ganhando um novo sentido: "é a hora da virada!" - cuidado com esse cara! Não perdoou nem a D. Maria!



10 de junho de 2010

Papai mandou...

Cada dia que passa o PT me parece menos um partido de trabalhadores e mais uma família tradicional, em que o pai dá a última palavra. Mas sem macarronada de domingo (a filharada vai se contentando com engolir sapos).
Depois de intervir em Minas e dar um sonoro "não"  (recebido com xilique, mas acatado) ao manifesto do PT-MG por uma chapa puro sangue, agora é a vez do Maranhão. Contrariando a decisão do diretório maranhense, que havia decidido por uma aliança mais à esquerda (formalmente falando, afinal, é o PC do B...), Papai Lula mandou o pessoal parar de brincadeira e disse que a vez era da sua Unigênita . Ou seja: todo apoio a Rosena Sarney.
Lula evidentemente preza os amigos. Dilma, a Unigênita, caso confirmada como herdeira, já vai desenhando seu espólio político. Vai ter que conviver com os antigos parceiros do papai...


Exemplo de bom filho

Quem se mostrou um exemplo de obediência filial até o momento foi o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Operador da polêmica coligação pró-Márcio Lacerda em 2008, contava ter garantido seu nome para o governo do Estado em 2010. Haveria apenas uma questão doméstica a ser resolvida com Patrus Ananias. No final das contas, a pedido do Pai, ficou sem governo e sem vice-governo.  Claro que reclamou um pouco. Mas, no final, abaixou a cabeça, gritou um "Viva Dilma" e aceitou uma vaguinha no Senado. Comovente exemplo de obediência.

25 de maio de 2010

Os parlamentares e a Biblioteca

 Hoje foi publicada uma lei federal reveladora, sob dois aspectos. Trata-se da lei 12.244, que pretende garantir que toda escola, pública ou privada, tenha uma biblioteca. O texto é bastante simples: quatro singelos artigos, curtinhos, incluindo o tradicional dispositivo "Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação".
Bem, o primeiro ponto revelador não diz respeito ao trabalho de nossos tão ocupados deputados e senadores, mas ao objeto de sua atenção. Por sorte ainda não há necessidade de nenhum legislador que nos force a beber água regularmente. Temo, porém, que este dia esteja próximo. Afinal, se há necessidade de obrigar uns tantos prefeitos, governadores e empresários a colocar bibliotecas nas escolas, a coisa não vai bem. E sabemos que não vai. Se a garotada não tiver livros à mão, seu viço  vai sumir, como uma planta desidratada. Surpreende que, a esta altura, a existência de uma biblioteca - bem montada, com acervo atualizado e de qualidade, aberta e utilizável - não seja pressuposta quando se fala em abrir uma escola.
O segundo ponto, no entanto, cai direto sobre os ombros dos nossos empenhadíssimos legiferantes.Não bastasse o projeto ter levado quase sete anos em tramitação (ordinária) na Câmara dos Deputados e no Senado, o texto da lei prevê que a universalização deverá estar completa em até dez anos. Com isso, nossos parlamentares conseguiram garantir que toda a geração nascida no início deste milênio poderá chegar às portas do ensino superior (supondo que termine o segundo grau) sem nunca ter entrado numa biblioteca. Sobretudo porque nós sabemos que faltam bibliotecas neste país.
Pelo visto, nossos parlamentares são bastante escrupulosos. Descontado o último artigo, que não requer análise, temos uma curiosa média de dois anos e uns três meses de leitura e discussão para cada artigo até o envio para sanção do presidente. Contudo, talvez eu seja um idiota e não consiga ler as sutilezas extremamente diáfanas da técnica legislativa contida nessa meia lauda de texto (uns 914 caracteres). Só pode ser isso: tanta demora para concluir a performance virtuosística dos nossos representantes...
Há um desinteresse generalizado pela política educacional inversamente proporcional ao valor cada vez maior que todos depositamos na educação. Todos parecemos estar de acordo ao dizer que educação é muito importante (a educação formal mesmo). Mas quando se trata de tomar decisões práticas que a afetem diretamente (haver ou não bibliotecas, por exemplo), o que vemos é o desinteresse de diretores de escola, prefeitos, governadores e donos de escolas particulares. E, claro, nossos legisladores máximos comungam do mesmo sentimento. É reveladora tanta demora; e é vulgarmente clara a intenção de concluir o trâmite em um ano de eleições, depois de passadas duas legislaturas.Todos ganham com isso. Quero dizer: o autor da proposta, os relatores pachorrentos, todos que votaram a favor, e até o presidente que apenas sancionou. Todos estarão este ano berrando aos quatro ventos que são pais da criança.
Até onde sei, a universalização do ensino fundamental foi uma meta estabelecida desde a constituição de 1988, pelo menos. Levamos quinze anos para perceber que para haver um bom ensino é preciso haver boas bibliotecas? Bom, talvez seja um sinal positivo: quem sabe daqui a mais quinze percebamos que também é necessário cuidar do bem estar dos professores (aquela pessoa que geralmente faz com que os alunos vão à biblioteca...). É, inclusive, curioso que tenham lembrado do bibliotecário que cuida do acervo e esquecido daquele que cuida da frequentação ao acervo, que dá a ele um sentido vivo.

Eu, no entanto, sugeriria aos nobres parlamentares que não usassem sua participaçao na elaboração dessa lei como capital eleitoral este ano. Esperem também dez anos. Até lá, procurem reparar se valeu a pena gastar tanto tempo nessa lei. Não me refiro ao tempo que tenham gastado pensando na matéria, que é evidentemente válida. Refiro-me ao tempo que gastaram elaborando o texto. Pois, já que se deram ao trabalho de legislar sobre aquilo que deveria ser o óbvio, deveriam ter previsto penalidades para prefeitos, governadores e empresários que não realizam uma tarefa tão básica. Deveriam, também, por força da coerência, ter acrescentado um novo parágrafo ao segundo artigo, proibindo que donos de escolas particulares usem a compra de livros como pretexto para o aumento de mensalidades. Afinal, se sabem que o ensino particular vem cobrindo há muito tempo um espaço que deveria ser coberto pelo ensino público, deveriam relembrar aquela velha meta de tornar o ensino acessível ao maior número, seja ele mantido por quem for. Deveriam, enfim, ter enfatizado não só a constituição do acervo bibliográfico, mas estabeler uma simples regra: a de que as tais bibliotecas deverão estar abertas por tanto tempo quanto for possível. E que deverão ser não só lugares bem montados, mas também aprazíveis. Que deverão ser lugares que cativem crianças e adolescentes. Afinal, trata-se de prescrever algo como beber água.
Sinto dizer que o texto dos nossos parlamentares é muito lacônico para tanto tempo de elaboração. Não faz jus ao trabalho de seus relatores. Diz muito pouco. Parece uma daquelas peças jurídicas bonitas, eivadas de boas intenções e que será lembrada até outubro, quando vai desaparecer sob a monótona campainha das urnas.


+ essa
Para se ter uma idéia de como nossos parlamentares deram voltas em torno de um problema que merecia melhor atenção (qualitativa e não quantitativa), seria útil lembrar a pesquisa divulgada pelo Minc sobre bibliotecas públicas municipais do país, e matéria sobre a mesma na Folha de S. Paulo em 01 de maio deste ano.
Bibliotecas públicas são diferentes de bibliotecas de escolas em uma série de aspectos. Mas servem como indicadores. É difícil imaginar que um município que não conte com uma biblioteca pública venha a ter bibliotecas em escolas. Pois se a autoridade municipal não se importa em pelo menos manter uma biblioteca para todo o seu município, o que dizer de uma em cada escola? E a iniciativa privada, que biblioteca colocará à disposição de seus alunos, numa situação dessas?
Nesse caso, apesar de o governo tentar explorar os aspectos mais positivos da pesquisa (quase universalização das biblotecas públicas, apesar de poucas funcionarem à noite), a Folha de S. Paulo acerta ao chamar a atenção para o tipo de uso que é feito dessas bibliotecas, bem como para a qualidade insatisfatória dos serviços prestados.
Ora, se a maior parte usa as bibliotecas municipais para pesquisas escolares, é um sinal significativo de que falta bibliotecas nas escolas (ou, pelo menos, elas não estão ficando abertas e em condições de uso, com material apropriado e instalações capazes de abrigar acervo e usuários). E se as bibliotecas municipais carecem de conforto e de serviços básicos (como acesso à internet disponível aos usuários), o que pensar das bibliotecas escolares?
Bibliotecas escolares são locais capazes de iniciar crianças e jovens no uso das bibliotecas, seja consultando livros, seja efetuando pesquisas pela Internet, acessando videos, etc. Elas deveriam ser um lugar de muitas possibilidades extracurriculares para os estudantes. Lugares coloridos, estimulantes - e, sobretudo, abertos, acolhedores. Mas, se falta até essa infraestrutura básica, dá pra imaginar a qualidade do serviço.
Como se vê, nossos parlamentares perderam uma grande oportunidade de fazer a diferença. Sete anos para impor uma obrigação vazia e lá se vai a oportunidade de instituir um instrumento detonador de um programa de estímulo ao uso de bibliotecas de qualidade.
Espero que pelo menos nossos professores consigam contornar isso com criatividade.


11 de maio de 2010

Dilma e Serra

Enfim, consegui entender more geometrico a diferença entre Dilma e Serra. Aí vai a demonstração:





O sinal da Unigênita - para servidores públicos

Há algum tempo tenho ouvido alguns colegas servidores públicos manifestarem, mais ou menos explicitamente, uma inclinação pró-Dilma. É um tanto natural, afinal, que a candidata apoiada por um governo que compensou a defasagem salarial de cerca de uma década, promovida pelo PSDB, desperte simpatias no funcionalismo. Eu, no entanto, apesar de servidor público também, não corroboro tal simpatia. Até ontem, eu podia argumentar meu ceticismo com relação à Unigênita apenas de um ponto de vista mais especulativo (afinal, ninguém sabe a que veio essa mulher, até agora). Mas, com a publicação das últimas notícias, já tenho um fato em que me apoiar.
Bem, o meu raciocínio para os servidores públicos é o seguinte: se de fato Dilma pretende reforçar a presença do Estado na economia, ela precisa de dinheiro para isso. Sei que bons economistas verão aí um cálculo simplista, mas é basicamente isso: se o Estado de Dilma vai ser algo mais que regulador e promotor de programas sociais de distribuição mínima de renda, ele precisará de capital para investir. Especialmente nos moldes que o PT vem indicando (com relação aos setores de minas e energia e comunicações, principalmente). Nesse ponto, não devemos acreditar muito que as chamadas “parcerias público-privado” serão uma panacéia. Afinal, o setor privado não vai aceitar investir mais capital que o Estado se este não der, em retorno, alguma garantia.
Então, supondo que o modelo de Estado de Dilma seja algo mais do que um recurso retórico mal formado para acalmar possíveis investidores preocupados com a instabilidade atual da economia, ela vai precisar de dinheiro para patrocinar essa “presença”. A forma mais direta para isso vai ser liberar uma parte do orçamento para investimentos. E como o orçamento é o resultado de um mar sem fim de negociações baseadas em interesses específicos e regionais... bom, dá pra imaginar que não vai ser fácil.
Ora, qual é o gasto que um governo tem mais à mão? A folha do funcionalismo, claro. Mesmo que não possa reduzi-la, ele pode congelá-la, por duas boas razões: diminuir o custo das negociações no parlamento (focando seus esforços em conseguir espaço para investimentos) e aumentar a porcentagem final de capital no orçamento. Ou seja, Dilma terá duas boas razões práticas, exigidas por seu modelo de Estado, para deixar os servidores outra década sem um reajuste salarial real.

6 de abril de 2010

Chumbo trocado

Quando Lula surgiu como um candidato efetivamente elegível, com uma coligação estratégica com o PL e simpatias, no mínimo, curiosas (isto é, quando entrou para ganhar, custasse o que custasse, como o sabem os ex-petistas...), o PSDB foi um dos principais divulgadores do “risco Lula”. De modo simples e direto: Lula seria uma ameaça à segurança econômica do país, a eterna criança que os tucanos quiseram manter para sempre no ninho.
Naquela época, o candidato do tucanato era Serra, que, em termos de rejeição, dispensa comentários. 
Depois que as últimas pesquisas, apesar de questionáveis – mas já convertidas em fato político –, indicaram a dificuldade de colocar Dilma como algo mais que uma “segunda voz” numa eleição polarizada, surge o “risco Serra” como reação descabelada. Isto é: Serra representa um risco às pequenas garantias sociais básicas promovidas nos últimos oito anos, e à ampliação da capacidade de consumo das camadas mais pobres que a classe média.
Os dois partidos mostram cada vez mais que, seja na curta “paz de Minas” (quando PT e PSDB se uniram localmente para eleger Márcio Lacerda prefeito de Belo Horizonte em 2008), seja nos confrontos nas tribunas do Planalto, são uma única besta com duas cabeças. Olhando para os dois, não deixamos de pensar: se vale tudo numa campanha eleitoral, vale, inclusive, ser ridículo.

28 de março de 2010

Também não entendi

A pancadaria estava correndo solta nas imediações do Palácio dos Bandeirantes no dia em que o Datafolha concluiu sua mais recente pesquisa de intenção de votos. Os professores e alguns estudantes de São Paulo estavam sendo asfixiados por bombas de gás porque Serra entende que grevista tem que ser tratado a porrete.
E, no entanto, Serra subiu nas pesquisas. Com uma dianteira significativa.
Das duas uma: ou a amostra consultada tem uma paixão doentia por Serra (sublinhem aí o "doentia"), ou então o diretor do Datafolha acertou ao dizer que o motivo dessa rápida escalada foi que "no último mês as chuvas diminuíram em São Paulo e, em consequência, a exposição negativa do governo Serra", o que significa que o eleitor paulistano prefere ficar com os pés secos a ter uma educação de qualidade.
Eu, que sou um idiota político, fico feliz em ver que eu não fui o único que não entendeu esse resultado, mas também alguém que labuta há tanto tempo no jornalismo político, como Clóvis Rossi.

Os perigos do parto a fórceps

A candidatura de Dilma Roussef à presidência foi um parto a fórceps, executado publicamente pelo presidente Lula. O parto a fórceps é um procedimento de risco, que só deve ser executado quando a sobrevivência do nascituro está em jogo. O nascituro, no caso, era o candidato do PT para substituir Lula. Desde 2005 o grupo político que dá sustentação ao presidente no PT viu muitas candidaturas natimortas, graças ao Mensalão do PT, um abortivo poderoso. Quando, então, foi fecundada a idéia da candidatura de Dilma, era natural que os pais se cercassem de cuidados. Mesmo assim, como o PT mostrou-se pouco apto a reproduzir um bom substituto a Lula, o fórceps foi necessário.
Os perigos imediatos desse procedimento vêm sendo repetidos há algum tempo, mas tomaram notoriedade hoje, com o resultado das últimas pesquisas do Datafolha. A falta de espontaneidade no parto leva a uma dificuldade de reconhecimento da face do pai no rosto da Unigênita. Lula não consegue transferir sua popularidade para o rosto marcado de Dilma, ainda que uma parte considerável do eleitorado bruzundanga mostre-se suscetível a votar num candidato indicado por Lula.
Os jornalistas mais cautelosos chamam a atenção para que ainda há muita campanha pela frente. E há. É possível, portanto, que a criança do PT vingue. Se ela vai conseguir "andar com as próprias pernas", como deseja o presidente, no entanto, é outra coisa.
Na verdade, esse é um outro risco do uso do fórceps. Supondo que a criança nasça e vingue, e que Dilma seja eleita, é difícil não imaginar as marcas que esse nascimento tão sofrido deixará em seu mandato. As marcas dos abortados do Mensalão estarão lá, com certeza. As figuras sombrias do PT (José Dirceu, Delúbio Soares e companhia) estarão na coxia, soprando falas, forçando mudanças no roteiro (quando não estiverem, eles próprios, escrevendo com suas próprias mãos). Mas penso que, acima de tudo, Lula terá que entrar com frequência no palco, para lembrar que a criança ali é sua filha. E ele terá que dizer isso não só para todos os brasileiros como, em especial, para a companheirada do PT.

27 de março de 2010

Dimenstein dá aula de burrice

Com certeza não é só o PT que terá que se proteger no debate sobre a educação. O PSDB, em vista dos últimos acontecimentos, vai ter que suar muito para conseguir esconder a inépcia de Serra na questão. Só há uma coisa mais burra que açular a polícia contra professores e estudantes: é defender o açulador usando como argumento a culpabilização dos agredidos. Esta última burrice foi escoiceada hoje na coluna do jornalista Gilberto Dimenstein, que decidiu assumir a condição servil de cocheiro do PSDB. Um grau abaixo de escudeiro (os escudeiros podiam, ao menos, aspirar a cavaleiros...). Mostrou-se um verdadeiro apascentador de burrices.
Ele já pode se juntar ao ministro da Educação, Fernando Haddad, que esta semana mostrou que está se esforçando para proteger Dilma. A diferença é que Haddad, que tem a faca e o queijo na mão, apesar da mão ser um tanto frouxa, foi maquiavelicamente mais eficaz: agiu de modo que o eleitorado bruzundanga pelo menos não odeie tanto a Unigênita.

24 de março de 2010

Pisou na merda? Sorria! É ano de eleição!

Quando escrevi que Serra e Dilma só diferiam em gênero (sexual) e usei como exemplo os resultados das políticas (?) educacionais dos partidos de um e da outra, não esperava uma demonstração tão óbvia do esforço do PT em proteger sua candidata sobre esse assunto como a que foi dada hoje pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. "É pouco recomendável fazer ao Enem entre o primeiro e o segundo turno das eleições", disse o ministro. Afinal, não podemos correr o risco de outro escândalo em uma época tão estratégica, não é mesmo? Tenho certeza que se Serra pudesse, teria dito algo semelhante à APEOESP: "pessoal, acho melhor deixar essa greve para novembro... vamos colaborar..."
Fico me perguntando qual dos dois, nos debates que virão, vai ter coragem de levantar a pauta da educação. Dilma tem a desculpa (esfarrapada) de que é só a ministra da Casa Civil. Serra, por sua vez, poderá alegar que é notívago e, como as manifestações foram de dia, ele assistiu a tudo com os olhos indiferentes de um sonâmbulo...

21 de março de 2010

O coração de uma tecnocrata

Escrevi há pouco que Serra e Dilma têm cada um uma planilha dourada para desenhar seus sonhos de governo. Escrevi que são tecnocratas, não tanto por cultivarem tais planilhas, mas porque o acesso a elas é privativo de cada um deles. Penso, porém, que posso estar enganado, pelo menos quanto a Dilma. Afinal, tendo Lula sido o genitor de sua candidatura (a primeira geração assexuada a fórceps que conheço), é fácil supor que ele tem acesso privilegiado ao coração da Mãe do PAC. Seria um gesto de brutal egoísmo a Unigênita do Pai negar ao Pai o acesso ao seu coração, não é mesmo?

Entre calça e saia

Um jornal acaba de atirar em minha cara que há uma "tendêndia à indecisão", num contingente grande de eleitores, entre Dilma e Serra. Não é para menos: não há diferença alguma entre os dois. Não falo da política econômica, tecla em que os partidos de extrema esquerda vão bater em suas exíguas oportunidades no horário eleitoral deste ano. Falo, digamos assim, da igualdade do modus politicus dos dois, que é o mesmo.
Serra e Dilma são dois tecnocratas ansiosos para executar o sonho que desenharam meticulosamente em suas pranchetas douradas. Sim, cada um deles tem uma prancheta dourada, com uma gravação em baixo-relevo: "Quando eu for presidente...". Cada um deles mantém sua respectiva planilha guardada num lugar bem íntimo, diria mesmo inacessível. Nelas acumulam-se planilhas e gráficos, montados com uma matemática bastante pessoal, que mostram o quanto eles são competentes e o quanto estão certos. Naturalmente - e é isso que lhes vale o caráter de tecnocratas - somente eles podem mexer no que está escrito ali.
Qualquer um dos dois governará como tecnocrata. Qualquer pessoa com algum senso sabe que a tecnocracia é a inimiga crucial das democracias contemporâneas. Um governo realmente democrático conta com bons técnicos e os mantêm onde devem estar: longe da caneta lenta das decisões. Dar a Dilma ou a Serra a tal caneta vai ser um desastre.
Serra já mostrou o perigo, em escala estadual. Destruiu durante todo o seu mandato o setor mais estratégico de que um governo deve cuidar: a educação. Com isso, condenou grande parte dos cidadãos paulistas à indigência intelectual, que é algo muito mais difícil de tratar que uma epidemia, pois o tratamento só apresenta resultados no curso de gerações.E, se não bastasse o ensino estadual responder por quase 50% das matrículas (dados do Inep de 2008), sabemos que o efeito dessa educação ruim rebate na totalidade da população de forma deprimente...
Dilma tem a seu favor o fato de não ter ocupado um cargo de ponta no executivo, apenas dois ministérios (incluindo o atual) e duas secretarias estaduais. Nunca esteve no banco da frente. Assim, tudo o que se disser de negativo a seu respeito parece apenas especulação e tudo o que alguém possa dizer de positivo é ungido com o santo óleo da esperança (refinado sabe-se lá onde...). Mas, se tomamos o PT como referência e mantemos os olhos na educação, vemos que qualquer promessa que ela fizer nesse campo será facilmente dissolvida pela acidez do ceticismo mais honesto.
Enfim, se o eleitorado continuar julgando que temos apenas duas alternativas em 2010, a única escolha que ele realmente fará será de gênero, esvaziada de qualquer conteúdo político. Escolherá entre a saia e a calça. Supondo, evidentemente, que Dilma use saia...