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29 de agosto de 2010

Sobre paixão, conhecimento e ensino - do ponto de vista de um aluno

- Foi pra isso que eu acordei cedo?
Somente hoje, doze dias depois de escrita, leio a postagem de Sabine Righetti  no Blog de Ciência da Folha. Isso me animou a voltar a este meu rincão cibernético para desbastar o capim bravo do abandono que já crescia por aqui e para revolver algumas lembranças sobre os tempos de escola. 
A jornalista formou-se em uma universidade bem melhor do que aquela em que me formei. Por algum motivo, escolheu o jornalismo (que escolhi também e abandonei, por algum motivo). E tem praticamente a mesma idade que eu - o que acentuou o eco de seu texto em mim. 
Eu também tive um segundo grau aborrecido, não só com relação à física, mas em relação às ciências em geral. Acredito que muitos colegas daquele tempo tenham sentido o mesmo, inclusive os que se dedicavam às disciplinas voltadas para as ciências de base e para a matemática. Acredito, ainda, que estes últimos só mantinham seu interesse por elas porque tinham um motivo pessoal muito forte ou porque tinham um caráter pragmático decisivo: queriam ser engenheiros, médicos, veterinários, etc.; logo, precisavam de física, biologia, matemática, etc. 
Em tempo: estudávamos todos em escola particular, e vínhamos, em expressiva maioria, do ensino fundamental da rede particular. Não necessariamente o melhor, admito. 
Talvez o que me impediu de tornar um completo ignorante nessas matérias tenha sido uma curiosidade natural, daquelas que folheia o conteúdo das lições que estão mais adiante na apostila ou no livro. Mas as aulas eram um quase completo aborrecimento. 
A minha curiosidade, inclusive, produzia sonhos. Eu sonhava com o dia em que estaria em uma escola em que aulas de química sobre cálculos de isomeria seriam demonstradas com a ajuda de experimentos em laboratório para mostrar, a olhos vivos, a estabilização de uma reação. Eu sonhava com aulas de botânica dadas em meio a estufas e herbários, e zoologia com dissecções e estudos de morfologia em animais vivos. Eu ansiava que alguém me mostrasse, num computador, o quão útil era o cálculo de matrizes para a computação, como um professor de matemática, de passagem, disse uma vez em sala de aula. 
Certa vez, quase pensei estar sonhando quando um professor, vindo do nada, e sem anúncio, decidiu realizar em sala de aula a reação de uma solução de nitrato de prata à luz, acompanhada de sua notação científica. Sempre que pude, repeti à exaustão a experiência nas aulas de fotojornalismo, na faculdade (embora seja bem verdade que, naquela época, a estética me interessasse mais do que a ciência...).
O resto, porém, foram apenas sonhos.
Também convivi, como a jornalista, com um sem fim de musiquinhas e outros recursos mnemônicos criados por um ou outro professor oportunista (um, eu me lembro, chegou a gravar um CD. Promovia-o nas suas aulas...). Engraçado pensar, hoje, que toda aquela poluição de "macetes" ocupando a memória sem relação entre si escoou rapidamente para o ralo do esquecimento, depois do vestibular. Por sorte, uma ou outra pedra de conhecimento "do bom" permaneceu para que eu pudesse, ao menos, saltar de uma para a outra e costurar relações, quando foi preciso.
Somente uma coisa veio em meu auxílio no segundo grau: a literatura. Nada poderia ser mais conveniente àquela idade em que nada parece confiável. Mas mesmo a literatura, ou pelo menos sua parte mais importante, tive de conhecê-la por conta própria, e quase por acidente. Não duvido que isso tenha determinado minha escolha pelo jornalismo - um tanto equivocadamente, admitamos. 
Mas, o mais desconcertante de pensar, hoje, quando vou lentamente reconciliando interesses literários com científicos, é ver o quanto esse aborrecimento pode ser causa de um fenômeno curioso entre universitários (principalmente os de humanidades, mas não só): um arrogante desprezo ou um temor sem ponderação diante de tudo o que pareça ciência ou pensamento científico. Vi isso ainda mais claramente quando decidi fazer, como segunda graduação, filosofia. De certa forma, esse comportamento aberrante me serviu de espelho e de auto-avaliação. Vi muita gente se refugiando em qualquer filósofo que, numa leitura rápida e pouco consistente, poderia dar "guarida contra a ciência". Vi, ainda, um comportamento deletério da parte dos professores de filosofia: ou estimulavam (conscientemente ou não) tal comportamento, formando "igrejinhas" em torno de si, ou quando, por força da cátedra, vinham em defesa do pensamento científico, agiam de forma tão imbecil e canhestra, que ficava realmente difícil dar-lhes razão - a menos que se fosse tão imbecil e sem talento quanto.
E, quando digo que isso não afeta apenas as humanidades, lembro-me do que um professor universitário de biologia me disse, certa vez, sobre seus alunos de medicina, enfermagem (e mesmo de biologia): um crescente número de adeptos do criacionismo "científico". Não é preciso ser um ateísta militante como um Dawkins para perceber que o criacionismo, em ciência, é uma construção argumentativa tão equivocada como aquela "aposta na existência de Deus" proposta por Pascal: inútil para o crente, que já possui fé na existência; divertimento para o descrente, ao ver um crente fervoroso agindo como croupier. No entanto, é preciso dizer que a aposta de Pascal ainda eram bem mais elegante, em sua forma de expressão, do que o são muitos criacionistas por aí...
Acho que Sabine Riguetti foi mais feliz do que eu. Teve melhor visão, creio. Eu cheguei a ouvir falar em jornalismo científico na falculdade, mas, naquela época, eu vivia imerso nesse ceticismo atoleimado com relação à ciência que obnubila a cabeça de muitos universitários ainda hoje. Fico feliz com sua felicidade, sem hipocrisia. 
Hoje, embora enxergue problemas teóricos ainda a ser esclarecidos sobre o chamado "jornalismo científico", que vão além da simples desconfiança (às vezes alimentada por exemplos concretos...) dos cientistas com relação à capacidade do jornalismo de reportar bem o estado da ciência, consigo ver a importância da defesa da divulgação científica feita por um paladino intergalático de Cosmos, como Carl Sagan. Afinal, que melhor contribuição estética a ciência nos daria do que a de vermo-nos como dentes-de-leão vagando, com nossas sementes de dúvida e de desejo, pelo universo?

16 de julho de 2010

CAPES e CNPq dão o braço a torcer

Depois de muito tempo fazendo vista grossa, a CAPES e o CNPq, principais agências de fomento à pesquisa em instituições de ensino superior, deram o braço a torcer: resolveram admitir que o valor de suas bolsas não é suficiente para manter, com exclusividade, a massa da mão de obra intelectual em formação do país. A partir de hoje, todos os estudantes de pós-graduação do país poderão receber, além da própria bolsa de estudos, uma "complementação financeira" (para a qual ninguém estipulou um teto...) "desde que se dediquem a atividades relacionadas à sua área de atuação e de interesse para sua formação acadêmica, científica e tecnológica" (veja a portaria).
O texto da portaria cria uma ampla margem discricionária e subjetiva para que orientadores e coordenadores decidam quais atividades atendem às duas condições acima. Muito provavelmente, as áreas de Ciências Humanas e de  ciência de base que não têm muitas vagas no mercado de trabalho estarão mais livres para permitirem que seus alunos trabalhem como professores (o que não raro significa muitas horas de aula), enquanto parte da área de Ciências da Saúde poderá ver os seus em turnos hospitalares noite adentro. Certamente ainda será difícil provar que estudar engenharia elétrica e trabalhar como manicure são atividades relacionadas. Mas a mensagem é clara: "tá bom, pessoal, podem parar de fingir. Nós sabemos que vocês continuam trabalhando e recebendo um 'por fora'. Agora pode". 
Hoje, os alunos de programas de pós-graduação (que não são os únicos a receber bolsas, mas certamente são a massa crescente de demanda) estão recebendo entre R$ 1.200,00 (mestrado) e R$ 1.800,00 (doutorado), graças a um aumento que vigora há cerca de dois anos. Só alguém realmente muito estúpido pode achar que esses valores são suficientes, especialmente quando consideramos que, por exemplo, a maioria das bolsas concedidas em 2009 pela CAPES e pelo CNPq esteve concentrada no Sudeste, em geral em grandes pólos urbanos (salvo algumas exceções em Minas Gerais e São Paulo), onde está a maioria das principais instituições de ensino do país e onde o custo de vida é sabidamente mais alto. Além disso, hoje um servidor público ocupando um cargo de nível médio em uma universidade estatal ou em um instituto abrangido pela carreira de Ciência e Tecnologia recebe, respectivamente, cerca de R$ 1.500,00 ou R$ 1.300,00 (mas podendo, neste último caso, facilmente chegar a 2.500,00 com gratificações) no início da carreira. O aumento do valor das bolsas, por outro lado, é fixo e depende exclusivamente de um ato administrativo que nem é obrigatório nem precisa ter qualquer relação com índices de inflação. Com isso, o Estado, que pretendia incentivar a formação de quadros profissionais de excelência, acaba empurrando nossos melhores cérebros para uma carreira burocrática menor. E o pior: segmenta socialmente ainda mais o acesso e a permanência na pós-graduação - pois o aluno, para conciliar seus gastos com livros e outros materiais de pesquisa com suas necessidades básicas, acaba, em mais de um momento, recorrendo à família. Não é à toa que nem a CAPES nem o CNPq fazem estatísticas sociais da pós-graduação. Fica a sugestão para os cientistas sociais cruzarem os dados da Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD) do IBGE com os indicadores de bolsas de fomento dos dois órgãos. Eu, que já convivi profissionalmente com as necessidades de bolsistas, digo que é preciso um tanto de coragem e disposição para declarar independência financeira e terminar um mestrado simultaneamente. 
Não custa lembrar que um estudante de pós-graduação não é apenas um estudante, como em geral ocorre na graduação (com exceção dos que passaram pelo ensino médio profissionalizante), mas um profissional formado. Além do mais, a sua atividade discente está intimamente vinculada à produção  de seu orientador, laboratório ou oficina em que trabalha. Ele não "apenas" estuda, como qualquer desinformado poderia pensar. E, cá entre nós: era um bocado de ingenuidade exigir exclusividade de um profissional formado pagando valores bem mais baixos que os de mercado. 
O preocupante nisso tudo não é se os estudantes vão ou não se dedicar menos aos seus projetos de pesquisa. Muitos já vêm, com ou sem o conhecimento de seus orientadores, mantendo atividades paralelas para se sustentarem. E muitos conseguem concluir seus cursos. O preocupante é que as duas principais agências de fomento nacional, com isso, estão dando sinais de esgotamento. Provavelmente, já vêm há algum tempo tendo que escolher se destinam mais verba ao custeio dos estudantes ou ao investimento institucional nos programas - o que é péssimo, pois ambos são igualmente necessários. Um garante distribuição social de acesso; o outro, a qualidade da atividade de pesquisa. Não acho que seja por acaso que ambas tenham tomado essa decisão este ano, depois do considerável aumento com os gastos com bolsas em 2009 com relação aos anos anteriores. Não vem coisa boa por aí.
Muitos vão respirar aliviados. Acho, porém, que o momento é de prender a respiração.


+ essa

Uma curiosidade: o Programa de Demanda Social da CAPES, que tem um caráter generalista (não capilariza os recursos por área, como a maioria dos editais do CNPq) e que teve seu regulamento reformulado este ano, prevê que as bolsas destinadas aos programas de pós-graduação por ele atendidos sirvam para manter, "em tempo integral, alunos de excelente desempenho acadêmico". Bem, realmente ainda não consegui imaginar uma situação em que possa haver uma atividade em tempo integral e uma outra paralela. "Integral" ainda diz respeito a "inteiro", não? Ou será que para a CAPES existe alguma parte além do todo?
Parece que nossas agências de fomento estão tão preocupadas com um possível colapso financeiro vindo por aí que já nem sabem mais como estão regulamentando a concessão do fomento...