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10 de junho de 2010

Papai mandou...

Cada dia que passa o PT me parece menos um partido de trabalhadores e mais uma família tradicional, em que o pai dá a última palavra. Mas sem macarronada de domingo (a filharada vai se contentando com engolir sapos).
Depois de intervir em Minas e dar um sonoro "não"  (recebido com xilique, mas acatado) ao manifesto do PT-MG por uma chapa puro sangue, agora é a vez do Maranhão. Contrariando a decisão do diretório maranhense, que havia decidido por uma aliança mais à esquerda (formalmente falando, afinal, é o PC do B...), Papai Lula mandou o pessoal parar de brincadeira e disse que a vez era da sua Unigênita . Ou seja: todo apoio a Rosena Sarney.
Lula evidentemente preza os amigos. Dilma, a Unigênita, caso confirmada como herdeira, já vai desenhando seu espólio político. Vai ter que conviver com os antigos parceiros do papai...


Exemplo de bom filho

Quem se mostrou um exemplo de obediência filial até o momento foi o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Operador da polêmica coligação pró-Márcio Lacerda em 2008, contava ter garantido seu nome para o governo do Estado em 2010. Haveria apenas uma questão doméstica a ser resolvida com Patrus Ananias. No final das contas, a pedido do Pai, ficou sem governo e sem vice-governo.  Claro que reclamou um pouco. Mas, no final, abaixou a cabeça, gritou um "Viva Dilma" e aceitou uma vaguinha no Senado. Comovente exemplo de obediência.

5 de junho de 2010

O Irã fala duas línguas

Depois de tomar conhecimento das declarações do presidente do Irã, feitas ontem, de que seu governo é "o mais democrático do mundo", suspeito que o país atualmente fale duas línguas. Pelo menos, do ponto de vista político. 
A língua oficial, a do presidente Mahmoud Ahmadinejad, é uma língua difícil de compreender. Quando trata de democracia, parece reeditar aquele conto de Borges, em que Averróis tenta entender o significado das palavras "tragédia" e "comédia", enquanto escreve seus comentários à obra de Aristóteles. Tais palavras eram-lhe estranhas, porque as formas culturais às quais elas se referem eram estranhas ao mundo Árabe. Essa estranheza é descrita alegoricamente no irônico diálogo entre o viajante Abulcásim e o alcoranista Farach. Abulcásim, que tinha alcançado a China, tenta explicar durante um jantar a visão que teve de uma representação teatral assistida por ele em Cantão. Ninguém o compreende, inclusive Averróis e Farach, que estavam presentes. Farach, ao contrário, desdenhou do fato, reputando inútil uma narração feita por muitas pessoas quando um único narrador "pode contar qualquer coisa, por mais complexa que seja". O alcoranista não via nenhuma vantagem em que lhe mostrassem uma história, em vez de apenas fazer referência a ela. 
Ahmadinejad parece ter a mesma dificuldade que Averróis, só que com a palavra "democracia". Sua língua oficial não consegue compreender bem do que se trata. 
A outra língua falada no país não tem um nome, ao certo. Mas claramente não é oficial. Ela é utilizada nas ruas, durante os protestos em Teerã e, me parece, é usada por alguns artistas, como Marjane Satrapi e os autores anônimos de O Paraíso de Zahra, entre outros. É uma língua que está ficando cada vez mais expressiva, infelizmente, ao dar vazão à dor. É também uma língua que, apesar disso, parece conseguir compreender, depois do engodo da Revolução, o significado de "democracia". É uma língua de gente que, como o Abulcásim do conto de Borges, conheceu a cultura de outros países, e ainda viu que havia algo de bom nisso. 
A língua oficial contenta-se com fazer uma pálida referência à democracia e desdenha, como Farach, das coisas que são descritas pela outra língua. E quando esta última insiste em falar e exige que mostrem a dita democracia, a primeira rosna. 
É difícil dizer por quanto tempo os iranianos permanecerão ainda bilíngues. Pois, se a língua oficial domina com mão de ferro dentro do país, dentro das casas e ao redor do mundo é a outra língua que se expressa melhor. 

Enfim, começo a suspeitar também que a simpatia de Lula por Ahmadinejad vá além das vantagens estratégicas, como alega a parcela nacionalista da inteligência do PT. Há uma afinidade na linguagem de ambos. Quero dizer, ambos tem um mau gosto por hipérboles. 

11 de maio de 2010

O sinal da Unigênita - para servidores públicos

Há algum tempo tenho ouvido alguns colegas servidores públicos manifestarem, mais ou menos explicitamente, uma inclinação pró-Dilma. É um tanto natural, afinal, que a candidata apoiada por um governo que compensou a defasagem salarial de cerca de uma década, promovida pelo PSDB, desperte simpatias no funcionalismo. Eu, no entanto, apesar de servidor público também, não corroboro tal simpatia. Até ontem, eu podia argumentar meu ceticismo com relação à Unigênita apenas de um ponto de vista mais especulativo (afinal, ninguém sabe a que veio essa mulher, até agora). Mas, com a publicação das últimas notícias, já tenho um fato em que me apoiar.
Bem, o meu raciocínio para os servidores públicos é o seguinte: se de fato Dilma pretende reforçar a presença do Estado na economia, ela precisa de dinheiro para isso. Sei que bons economistas verão aí um cálculo simplista, mas é basicamente isso: se o Estado de Dilma vai ser algo mais que regulador e promotor de programas sociais de distribuição mínima de renda, ele precisará de capital para investir. Especialmente nos moldes que o PT vem indicando (com relação aos setores de minas e energia e comunicações, principalmente). Nesse ponto, não devemos acreditar muito que as chamadas “parcerias público-privado” serão uma panacéia. Afinal, o setor privado não vai aceitar investir mais capital que o Estado se este não der, em retorno, alguma garantia.
Então, supondo que o modelo de Estado de Dilma seja algo mais do que um recurso retórico mal formado para acalmar possíveis investidores preocupados com a instabilidade atual da economia, ela vai precisar de dinheiro para patrocinar essa “presença”. A forma mais direta para isso vai ser liberar uma parte do orçamento para investimentos. E como o orçamento é o resultado de um mar sem fim de negociações baseadas em interesses específicos e regionais... bom, dá pra imaginar que não vai ser fácil.
Ora, qual é o gasto que um governo tem mais à mão? A folha do funcionalismo, claro. Mesmo que não possa reduzi-la, ele pode congelá-la, por duas boas razões: diminuir o custo das negociações no parlamento (focando seus esforços em conseguir espaço para investimentos) e aumentar a porcentagem final de capital no orçamento. Ou seja, Dilma terá duas boas razões práticas, exigidas por seu modelo de Estado, para deixar os servidores outra década sem um reajuste salarial real.

6 de abril de 2010

Chumbo trocado

Quando Lula surgiu como um candidato efetivamente elegível, com uma coligação estratégica com o PL e simpatias, no mínimo, curiosas (isto é, quando entrou para ganhar, custasse o que custasse, como o sabem os ex-petistas...), o PSDB foi um dos principais divulgadores do “risco Lula”. De modo simples e direto: Lula seria uma ameaça à segurança econômica do país, a eterna criança que os tucanos quiseram manter para sempre no ninho.
Naquela época, o candidato do tucanato era Serra, que, em termos de rejeição, dispensa comentários. 
Depois que as últimas pesquisas, apesar de questionáveis – mas já convertidas em fato político –, indicaram a dificuldade de colocar Dilma como algo mais que uma “segunda voz” numa eleição polarizada, surge o “risco Serra” como reação descabelada. Isto é: Serra representa um risco às pequenas garantias sociais básicas promovidas nos últimos oito anos, e à ampliação da capacidade de consumo das camadas mais pobres que a classe média.
Os dois partidos mostram cada vez mais que, seja na curta “paz de Minas” (quando PT e PSDB se uniram localmente para eleger Márcio Lacerda prefeito de Belo Horizonte em 2008), seja nos confrontos nas tribunas do Planalto, são uma única besta com duas cabeças. Olhando para os dois, não deixamos de pensar: se vale tudo numa campanha eleitoral, vale, inclusive, ser ridículo.

28 de março de 2010

Os perigos do parto a fórceps

A candidatura de Dilma Roussef à presidência foi um parto a fórceps, executado publicamente pelo presidente Lula. O parto a fórceps é um procedimento de risco, que só deve ser executado quando a sobrevivência do nascituro está em jogo. O nascituro, no caso, era o candidato do PT para substituir Lula. Desde 2005 o grupo político que dá sustentação ao presidente no PT viu muitas candidaturas natimortas, graças ao Mensalão do PT, um abortivo poderoso. Quando, então, foi fecundada a idéia da candidatura de Dilma, era natural que os pais se cercassem de cuidados. Mesmo assim, como o PT mostrou-se pouco apto a reproduzir um bom substituto a Lula, o fórceps foi necessário.
Os perigos imediatos desse procedimento vêm sendo repetidos há algum tempo, mas tomaram notoriedade hoje, com o resultado das últimas pesquisas do Datafolha. A falta de espontaneidade no parto leva a uma dificuldade de reconhecimento da face do pai no rosto da Unigênita. Lula não consegue transferir sua popularidade para o rosto marcado de Dilma, ainda que uma parte considerável do eleitorado bruzundanga mostre-se suscetível a votar num candidato indicado por Lula.
Os jornalistas mais cautelosos chamam a atenção para que ainda há muita campanha pela frente. E há. É possível, portanto, que a criança do PT vingue. Se ela vai conseguir "andar com as próprias pernas", como deseja o presidente, no entanto, é outra coisa.
Na verdade, esse é um outro risco do uso do fórceps. Supondo que a criança nasça e vingue, e que Dilma seja eleita, é difícil não imaginar as marcas que esse nascimento tão sofrido deixará em seu mandato. As marcas dos abortados do Mensalão estarão lá, com certeza. As figuras sombrias do PT (José Dirceu, Delúbio Soares e companhia) estarão na coxia, soprando falas, forçando mudanças no roteiro (quando não estiverem, eles próprios, escrevendo com suas próprias mãos). Mas penso que, acima de tudo, Lula terá que entrar com frequência no palco, para lembrar que a criança ali é sua filha. E ele terá que dizer isso não só para todos os brasileiros como, em especial, para a companheirada do PT.

24 de março de 2010

Pisou na merda? Sorria! É ano de eleição!

Quando escrevi que Serra e Dilma só diferiam em gênero (sexual) e usei como exemplo os resultados das políticas (?) educacionais dos partidos de um e da outra, não esperava uma demonstração tão óbvia do esforço do PT em proteger sua candidata sobre esse assunto como a que foi dada hoje pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. "É pouco recomendável fazer ao Enem entre o primeiro e o segundo turno das eleições", disse o ministro. Afinal, não podemos correr o risco de outro escândalo em uma época tão estratégica, não é mesmo? Tenho certeza que se Serra pudesse, teria dito algo semelhante à APEOESP: "pessoal, acho melhor deixar essa greve para novembro... vamos colaborar..."
Fico me perguntando qual dos dois, nos debates que virão, vai ter coragem de levantar a pauta da educação. Dilma tem a desculpa (esfarrapada) de que é só a ministra da Casa Civil. Serra, por sua vez, poderá alegar que é notívago e, como as manifestações foram de dia, ele assistiu a tudo com os olhos indiferentes de um sonâmbulo...